Prazer, liberdade

É difícil falar de liberdade. Principalmente quando se estuda psicologia e cada teoria tem a sua própria visão sobre o que é liberdade e se somos ou não realmente livres. Eu pensei em psicologizar esse texto, mas, pensei que talvez um dos motivos para a sensação de sufocamento é ir buscar explicações teóricas para todos os sentimentos que se tem e não se permitir realmente sentir. Só sentir. Sem tentar entender os porquês e sem tentar travar, frear e amenizar. Sentir com a plena força do que vier. Não é tão fácil como parece. Mas enfim, sem me importar em soar inteligente ou em impressionar seres inexistentes: a sensação de liberdade existe. Existe porque eu senti ela. Existe porque eu sinto falta dela nos dias que eu acordo e me sinto sufocada.

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Eu fiz intercâmbio de agosto a janeiro do ano passado (2016-2017) e esse texto começou a ser escrito antes do meu retorno ao Brasil. A vida aconteceu e eu acabei esquecendo que ele existia até encontrar nos rascunhos e resolver que é um assunto que talvez seja interessante discutir. Ajustes foram feitos no que eu já tinha escrito, mas a ideia é realmente transitar entre sentimentos de lá e de cá.

Na época, antes de eu ir, Porto Alegre me colocava dentro de uma caixa. Em uma caixa pequena, apertada, sufocante. Onde eu ia, a sensação de não conseguir respirar me perseguia e estava chegando em um ponto onde não era mais saudável. Não é saudável sair de casa com uma sensação de aperto constante no peito. Não é saudável ficar verificando os confirmados em eventos do Facebook para decidir ou não se tu vai ir. Não é saudável tomar decisões se baseando em outros. Que estão tão longe e se importam tão pouco. O sufoco é olhar por todas as janelas e ver grades. É precisar se programar tão bem para fazer atividades tão simples por segurança. É estar sempre atenta. Sempre prestando atenção nos arredores. Sempre ligada na mochila, celular, livro, corpo…

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Então eu saí. A vida tem sido bem legal comigo em me proporcionar momentos de fuga em períodos específicos da vida. O momento de agosto do ano passado veio muito bem. Porque as vezes não basta estar longe em um sentido figurativo, as vezes é preciso entrar em um avião e partir para quilômetros e quilômetros de distância, esperando que assim, a mente compreenda uma questão ou duas. As vezes é preciso realmente ir para longe para uma desintoxicação de tudo que te diminui, te cansa e te exausta diariamente. E não deveria. Nem todos os dias deveriam ser batalhas travadas com tanto afinco.

Desde que o momento que eu cheguei na Holanda, eu não senti mais sufocamento nenhum. Eu conseguia respirar de uma maneira como não conseguia a tanto tempo. Eu conseguia ir a lugares e viver da forma mais genuína que eu já vivi. Eu era eu. Eu fui a versão mais eu que eu já fui em toda a minha vida. Não era eu em conflito comigo mesma. Não era eu em conflito com fantasmas. Não era eu em conflito com resquícios que eu esqueci em esquinas desertas e ruas movimentadas. Era apenas eu. Da forma que eu sentia que deveria ser. Da forma que eu me sentia livre. Eu me senti muito livre.

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Os momentos que mais me impressionavam e eu chegava a sentir meu corpo todo arrepiar com a sensação era quando eu voltava de madrugada para casa de bicicleta, as ruas vazias, escuras, o frio confortável, o silêncio que no início me era ensurdecedor e eu precisava ouvir música e depois eu aprendi a apreciar o silêncio por ser quem ele era no seu ser mais próprio e mais quieto e mais assustador. Nessas horas, eu acelerava bastante e em inclinações de descida da rua, eu soltava a força e deixava a bicicleta me levar. Eu deixava o vento tocar no meu rosto e empurrar meus cabelos para trás. Eu sempre sorria. Ás vezes eu chorava.

O meu maior medo de voltar era perder essa sensação. Era voltar a sentir um sufoco sem fim e sentir uma vida emprisionada. Mas acho que quando se aprende uma sensação nova, nosso corpo passa a aprender a buscá-la. E a única coisa que precisamos fazer é nos ouvir atentamente para descobrir onde encontrar pedaços de liberdade escondidos em lugares enclausurados. Porto Alegre não é uma cidade que faz com que eu me sinta livre todas as vezes que eu piso na rua. Nunca foi e infelizmente eu acho difícil que venha a ser. Mas eu não me sinto mais (tão) sufocada. Eu aprendi que a liberdade também pode ser encontrada em pequenos momentos, em pessoas e em lugares específicos. Não é mais uma constante como foi naqueles seis meses, mas não somos mais estranhas uma para outra. Gabriele conhece liberdade e liberdade conhece Gabriele. E de tempos em tempos nos reencontramos por aí, como velhas amigas que tem muito o que conversar.

 

 

 

 

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Uma Jornada à Noruega 3/3

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Depois de alguns meses do meu retorno ao Brasil e alguns meses que todas as minhas viagens aconteceram, eu me sentei para organizar álbuns de fotos. Não os eletrônicos, mas os de verdade mesmo. Aqueles que talvez estejam quase entrando em extinção e talvez a dificuldade que eu tive para encontrar uma variedade satisfatória de álbuns nas lojas prove isso. A verdade é que o processo de seleção das fotos e depois o processo de organização delas foi extremamente nostálgico, sentimental e um pouquinho dolorido, preciso admitir. Também, me levantou uma questão que eu comecei a pensar em Estocolmo e passou a permear todas as minhas viagens desde então: minha relação com museus, obras de arte e fotografia.

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Começou em Estocolmo porque foi lá que eu decidi fazer algo completamente fora da minha zona de conforto e visitar um museu de fotografia, o Fotografiska. Eu digo fora da minha zona de conforto porque eu nunca me vi interessada por fotografia. Sempre foi algo que eu tirei para registrar momentos, mas nunca muito preocupada com estética. E um museu de fotografia me soava extremamente alternativo e cool para uma pessoa como eu. Para uma pessoa que era eu. Aí entramos também na questão de pré-julgar coisas com base em ideais que nós colocamos nelas e que no fundo, não tem muito a ver. Qualquer ser pode ir em um museu de fotografia e se relacionar com ele. E foi isso que eu senti.

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Eu sempre me relacionei com histórias que li em livros. Sempre foi muito fácil para mim me relacionar com o ambiente e personagens criados pelos autores, suas mais diversas experiências de vida e tudo mais. Essa era o tipo de arte que eu me sentia confortável em consumir. Que eu me sentia capaz de compreender. De me relacionar com. O Fotografiska foi uma experiência que mudou minha vida porque me mostrou que eu posso compreender fotografia em um nível muito mais íntimo do que achei que poderia. Que a foto pode conversar comigo. É só eu me abrir para ela e deixar ela me contar sua história. A partir daquele momento, eu me senti capaz de consumir arte de uma forma completamente diferente e isso mudou significativamente minha experiência em um continente que tem tanta arte por todos os lados. E fez com que passeios por museus se tornassem uma troca de histórias. E fez com que eu entrasse em museus que nunca pensei que fosse entrar e ao entrar de coração aberto, me permiti ser surpreendida.

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Eu não preciso entender tecnicamente a arte. Eu não preciso ser artista. Eu não preciso saber de cor os nomes dos pintores mais famosos. Eu não preciso entender movimentos de épocas diferentes ou saber exatamente qual quadro é de quem ou porque o quadro x fez sucesso na época y. Se eu quiser, eu posso ir atrás é claro, mas eu aprendi que nada disso é pré-requisito para apreciar arte. Eu posso apreciar arte do meu jeito e não pode existir um jeito certo e um errado de fazer isso. Eu posso dizer que para mim, apreciar arte é parar na frente de um quadro que no meio de mais quinze me chamou mais atenção e conversar com ele. Ver o que ele me diz. Qual sentimento ele grita. Se ele grita. Se ele chora. Se ele ri. Porque quadros fazem isso, eu descobri. Esculturas dançam.

DSC06974E eu também aprendi que me expondo a diversos tipos de museus, eu posso descobrir o que eu gosto mais e eu posso aprender a diferenciar as mais diversas formas de exibir arte que existem por aí. Em Oslo, eu comprei o Oslo Pass que pelo valor, me dava acesso a praticamente todos os museus da cidade e fiz muito bom uso disso.

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Talvez eu não tivesse visitado o museu dos barcos vikings e talvez eu não tivesse tido uma experiência sensacional como eu tive. E talvez eu não tivesse tido a chance de entrar em vários museus, dar uma olhadinha e descobrir que não era para mim. De entender que arte moderna contemporânea talvez esteja mais avançada para o meu nível de conversação com as obras. Não rolou diálogo, mas eu estava lá e eu dei uma chance.

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E arte vai muito além daquilo que está dentro dos museus. É aquele prédio que fez com que eu atravessasse a rua para ver mais de perto. Que fez com que eu observasse e sorrisse pensando “que coisa linda de se ter no meio de uma rua qualquer”. É um parque de estátuas que te deixa completamente absorta do mundo. Talvez pensando “e se todas elas criarem vida nesse exato momento”, mas também pensando que a vida é meio mágica. É como as folhas caem no chão no outono e é como a paisagem fica toda em uma paleta de tons laranja. A arte só é arte porque alguém é cada pedacinho da vida é um pouco arte e felizmente existem pessoas com olhos que veem isso.

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Recomendação de livro:

Uma Jornada à Noruega 2/3

Eu sempre duvidei da minha capacidade de viajar sozinha. Acredito que essa dúvida venha de algumas relações onde as pessoas fizeram com que eu me sentisse incapaz, pequena, menos e que as minhas decisões e minha opções eram menos do que as dessas pessoas. Acontece que depois de viajar, conhecer gente fazendo as viagens mais diversas possíveis e pensar bastante sobre tudo isso enquanto caminhava por aí (nas fotos desse post, na cidade maravilhosa de Estocolmo, Suécia) eu cheguei a conclusão e abracei essa conclusão com toda a força possível, que não existe um tipo certo/melhor de viagem.

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Não é melhor/pior/mais cool/ mais brega viajar de avião, ônibus, trem, carro, carona, bicicleta, etc. Durante tanto tempo eu deixei as opiniões de outras pessoas me afetarem que só porque eu não toparia uma viagem de carona por aí, eu não era legal suficiente. Eu não era divertida, alternativa o suficiente para esse mundo bizarro que vivemos atualmente. Foi um momento de libertação tão grande, quando eu finalmente consegui me livrar de todas as vozes e todas essas ideias sem sentido e pensar que: no fundo, não importa como eu chego nos lugares e sim que eu estou chegando neles.

Eu não posso ficar estagnada porque viajar de avião é careta se é um avião que vai me levar da forma mais barata/rápida/fácil para os lugares que eu quero ir. Como eu também vou passar dez horas em um ônibus – que seja minimamente confortável e seguro – para chegar em outros.

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Parece muito simples. O processo de libertação dessas ideias. Mas acho que depois de ter gente que tu considerou tanto por tanto tempo te dizer tantas coisas que machucam, esses machucados levam um tempo para cicatrizar. E depois leva um tempo maior ainda para a cicatriz ficar pequenininha, quase invisível. Escandinávia me proporcionou essa libertação. De me encontrar novamente com quem eu sou, quem eu sei que eu sou e quem eu amo ser. Sem influências, opiniões e pitacos de ninguém. Apenas eu.

Eu cheguei na Escandinávia do meu jeito chato de viajar. E a única coisa que eu conseguia pensar era que chato seria, ficar esperando a aprovação de uma pessoa que tanto não se importa com os sentimentos dos outros. Que atira palavras como balas sem se importar quem atinge.

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Eu vou continuar conhecendo o mundo desse meio jeito sem graça. Chato. Tedioso. Brega. O mundo é maravilhoso demais para eu me importar com detalhes e para eu me importar ser humanos que não se importam com nada. E eu espero que os jeitos alternativos, legais, rebeldes e aventurosos aprendam que não existe um jeito certo de ir.

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São Paulo (julho, 2016)

Aos pouquinhos a gente vai conhecendo os muitos lugares desse mundo. E registrando com umas fotos, torcendo muito para que nem todas saiam tremidas e estranhas, já que quem escreve essas palavras não tem muito talento para fotografia.

E é muito bom quando no meio dessas andanças podemos parar de admirar uns quadros de anos e anos atrás. E outros de anos recentes. E pensar no porquê aquelas pessoas que me encaram cheias de tinta parecem tão tristes. Ou se é uma projeção minha.

São Paulo foi uma viagem curta e uma viagem necessária para uma outra aventurinha que está para começar. E essa sim, julho, vai ser para tirar qualquer tristeza que esteja se escondendo nos cantinhos da alma.