Desencontrando, eu me encontrei

A gente vai se conhecendo a partir do ambiente que nos cerca e do feedback que vamos recebendo das pessoas a respeito de quem somos, quem não somos, quem aparentamos ser. As vezes as pessoas ao nosso redor acertam e fazem com que tenhamos uma noção saudável sobre quem somos. As vezes estamos em um momento da vida onde conseguimos separar aquilo que a pessoa traz e que é apenas dela, aquilo que é em relação a nós e aquilo que é em relação a junção de duas vidas que está acontecendo naquele momento. As vezes estamos confusos demais e despersonalizados demais para fazer essa diferenciação e aceitamos tudo de todos sem discernir muito bem se aquilo que x está me dizendo realmente é aplicável a mim. Ou eu apenas fui lida de uma forma errada porque x tem lentes de contatos suas que fazem que x veja o mundo de uma forma específica.

Screenshot_2016-12-02-00-58-44-1

 

Nunca vou esquecer do dia que uma professora disse em uma aula que ninguém iria encontrar sua outra metade da laranja. Porque ninguém era uma metade da laranja. Cada um era uma laranja completa, que iria encontrar outra laranja completa e então duas laranjas completas iriam resolver que aquela companhia era agradável o suficiente para seguir a vida juntas.

Mas quando estamos em uma relação e quem somos não está tão claro assim, as coisas começam a ficar mais complicadas. Mais misturadas. E quando a outra pessoa parte, você não sabe mais o que era seu, o que era dela, o que era da relação, o que você quer que fique, o que você quer que mude. O que está acontecendo.

Tem toda a história de expectativas, quando nos encontramos com uma pessoa. Encontramos no sentido que sentimos estar no mesmo modo de pensar do outro. Com expectativas parecidas. Com desejos parecidos. Com ideias sobre o que é tratar uma outra pessoa bem parecidas. E por aí vai. Muito além de um simples encontro físico. Esse outro tipo de encontro envolve muito. Eu não sei porque, quando eu devia ter uns oito anos, eu achei que teria sorte na vida na questão de encontrar pessoas. Talvez eu tenha assistido muitos filmes da Disney, mas confesso que tem sido uma aprendizagem interessante todos os mais diversos desencontros que eu encontrei no meu caminho.

Alguns mais traumáticos que outros, alguns mais estúpidos que outros, alguns mais tranquilos que outros, eu descobri que me desencontrando com tanta gente foi que eu comecei a me encontrar de verdade. Foi não permitindo que as pessoas tivessem uma visão distorcida minha que eu descobri qual era a visão que eu tinha de mim mesma. Foi estabelecendo limites que eu descobri até onde eu aceitava flexibilizar. Foi quando eu ouvia “tu é … “, que eu me contorcia por dentro e pensava que eu não sou nada que eu não queira ser. Que eu não sou uma visão planificada de uma pessoa que me conhece a poucas horas e acha que sabe todas as curvas, desvios e atalhos do meu ser. Nem eu sei.

O encontro de dois mundos é impactante e eu acho que deve ser visto como algo importante. As pessoas se influenciam, se afetam e é mágico como essa troca tem consequências. Pode doer e pode fazer crescer. Na maioria das vezes dói e com a dor a gente cresce. E dói porque somos descuidados como seres humanos com outros seres humanos. Faz parte. Eu queria chegar a uma conclusão de que existe uma receita especial que poupe todo esse desgaste emocional, mas a única conclusão que eu cheguei é que me desencontrando dos outros e me desencontrando de mim mesma é que eu encontrei a estrada certa para voltar a me encontrar. É simplesmente confuso assim.

 

Prazer, liberdade

É difícil falar de liberdade. Principalmente quando se estuda psicologia e cada teoria tem a sua própria visão sobre o que é liberdade e se somos ou não realmente livres. Eu pensei em psicologizar esse texto, mas, pensei que talvez um dos motivos para a sensação de sufocamento é ir buscar explicações teóricas para todos os sentimentos que se tem e não se permitir realmente sentir. Só sentir. Sem tentar entender os porquês e sem tentar travar, frear e amenizar. Sentir com a plena força do que vier. Não é tão fácil como parece. Mas enfim, sem me importar em soar inteligente ou em impressionar seres inexistentes: a sensação de liberdade existe. Existe porque eu senti ela. Existe porque eu sinto falta dela nos dias que eu acordo e me sinto sufocada.

20161101_101021

Eu fiz intercâmbio de agosto a janeiro do ano passado (2016-2017) e esse texto começou a ser escrito antes do meu retorno ao Brasil. A vida aconteceu e eu acabei esquecendo que ele existia até encontrar nos rascunhos e resolver que é um assunto que talvez seja interessante discutir. Ajustes foram feitos no que eu já tinha escrito, mas a ideia é realmente transitar entre sentimentos de lá e de cá.

Na época, antes de eu ir, Porto Alegre me colocava dentro de uma caixa. Em uma caixa pequena, apertada, sufocante. Onde eu ia, a sensação de não conseguir respirar me perseguia e estava chegando em um ponto onde não era mais saudável. Não é saudável sair de casa com uma sensação de aperto constante no peito. Não é saudável ficar verificando os confirmados em eventos do Facebook para decidir ou não se tu vai ir. Não é saudável tomar decisões se baseando em outros. Que estão tão longe e se importam tão pouco. O sufoco é olhar por todas as janelas e ver grades. É precisar se programar tão bem para fazer atividades tão simples por segurança. É estar sempre atenta. Sempre prestando atenção nos arredores. Sempre ligada na mochila, celular, livro, corpo…

20161212_094753

Então eu saí. A vida tem sido bem legal comigo em me proporcionar momentos de fuga em períodos específicos da vida. O momento de agosto do ano passado veio muito bem. Porque as vezes não basta estar longe em um sentido figurativo, as vezes é preciso entrar em um avião e partir para quilômetros e quilômetros de distância, esperando que assim, a mente compreenda uma questão ou duas. As vezes é preciso realmente ir para longe para uma desintoxicação de tudo que te diminui, te cansa e te exausta diariamente. E não deveria. Nem todos os dias deveriam ser batalhas travadas com tanto afinco.

Desde que o momento que eu cheguei na Holanda, eu não senti mais sufocamento nenhum. Eu conseguia respirar de uma maneira como não conseguia a tanto tempo. Eu conseguia ir a lugares e viver da forma mais genuína que eu já vivi. Eu era eu. Eu fui a versão mais eu que eu já fui em toda a minha vida. Não era eu em conflito comigo mesma. Não era eu em conflito com fantasmas. Não era eu em conflito com resquícios que eu esqueci em esquinas desertas e ruas movimentadas. Era apenas eu. Da forma que eu sentia que deveria ser. Da forma que eu me sentia livre. Eu me senti muito livre.

20161221_210750

Os momentos que mais me impressionavam e eu chegava a sentir meu corpo todo arrepiar com a sensação era quando eu voltava de madrugada para casa de bicicleta, as ruas vazias, escuras, o frio confortável, o silêncio que no início me era ensurdecedor e eu precisava ouvir música e depois eu aprendi a apreciar o silêncio por ser quem ele era no seu ser mais próprio e mais quieto e mais assustador. Nessas horas, eu acelerava bastante e em inclinações de descida da rua, eu soltava a força e deixava a bicicleta me levar. Eu deixava o vento tocar no meu rosto e empurrar meus cabelos para trás. Eu sempre sorria. Ás vezes eu chorava.

O meu maior medo de voltar era perder essa sensação. Era voltar a sentir um sufoco sem fim e sentir uma vida emprisionada. Mas acho que quando se aprende uma sensação nova, nosso corpo passa a aprender a buscá-la. E a única coisa que precisamos fazer é nos ouvir atentamente para descobrir onde encontrar pedaços de liberdade escondidos em lugares enclausurados. Porto Alegre não é uma cidade que faz com que eu me sinta livre todas as vezes que eu piso na rua. Nunca foi e infelizmente eu acho difícil que venha a ser. Mas eu não me sinto mais (tão) sufocada. Eu aprendi que a liberdade também pode ser encontrada em pequenos momentos, em pessoas e em lugares específicos. Não é mais uma constante como foi naqueles seis meses, mas não somos mais estranhas uma para outra. Gabriele conhece liberdade e liberdade conhece Gabriele. E de tempos em tempos nos reencontramos por aí, como velhas amigas que tem muito o que conversar.

 

 

 

 

Melodramática

Escute no Spotify

Sempre que me perguntam que estilo de música eu gosto, tenho um pouco de dificuldade de responder. Os ritmos podem variar bastante, dependem bastante do meu humor da época, mas se tem alguma constante nessa história toda que eu dou importância é a letra da música. Parecido com o que eu falei nesse texto aqui, eu gosto de deixar a música conversar comigo. As vezes é uma conversa interessante, mas que eu não tenho vontade de repetir e as vezes é algo maravilhoso que eu preciso revisitar uma quantidade absurda de vezes porque existe uma intersecção muito grande entre eu e a música. A música é um pouco de mim e eu sou um pouco da música. Existe algo que nos conecta que é mais do que um ritmo bom. Algum artista com uma voz boa. É uma poesia. É algo que diz “ei, eu sei o que tu sentiu, está sentindo ou vai sentir”. E é um conforto absurdo.

la-et-ms-lorde-melodrama-review-20170616

Não é algo que acontece com muita frequência. Contudo, de tempos em tempos, aparece um CD novo que me deixa maravilhada. Aparece uma música que me toca fundo. Que mexe comigo como se quem escreveu conhecesse meus medos e sentimentos mais profundos, aqueles que eu tanto sofro para colocar no papel, para transformar em palavras. Ver o que eu sinto verbalizado e musicalizado é mágico. É terapêutico.

Eu nunca falei sobre música porque eu não me considero uma grande entendedora de música. Mas eu gosto de tentar entender sentimentos. “Melodrama”, o novo CD da Lorde entendeu sentimentos meus desses últimos dois anos que eu nem sabia que precisavam ser entendidos.

‘Cause honey I’ll come get my things, but I can’t let go
I’m waiting for it, that green light, I want it
Oh, I wish I could get my things and just let go
 I’m waiting for it, that green light, I want it
-Green Light

Lorde tem a minha idade, então estamos transitando simultaneamente pelos vinte anos e é uma grande aventura. Transitamos simultaneamente também por um primeiro término. Por uma primeira jornada de autoconhecimento, liberdade e início da vida adulta. Sobre ser jovem e estar se descobrindo e descobrindo como atravessar os buracos que aparecem no caminho a todo tempo.

Meu desejo era escrever sobre as minhas músicas favoritas, até perceber que eu iria escrever sobre cada uma do CD. Então vou tentar abordar de uma forma geral e especifica simultaneamente e esperar que dê certo.

I’ll give you my best side, tell you all my best lines
Seeing me rolling, showing someone else love
Dancing with our shoes off
Know I think you’re awesome, right?
-Homemade Dynamite

As músicas tem um ritmo pop que dão vontade de desligar as luzes do quarto e dançar sozinha como se estivesse em uma festa lotada. E ao mesmo tempo que elas em sua maioria tem um ritmo mais agitado e “para cima”, as letras não pecam na reflexividade sobre esse período da vida. Existe a questão de tentar seguir em frente e ter dificuldades, de esperar um sinal (Green Light) para deixar tudo para trás e seguir outros caminhos. Lorde aborda a questão de festas, experiências novas, ficadas, a sensação que se tem quando se ‘apaixona’ por uma pessoa muito rápido em uma festa e todos aqueles sentimentos acelerados aparecem (Sober).

lorde sober main

Temos confusões sobre ainda gostar de alguém ou não (Hard Feelings/Loveless) e sobre uma geração que não ama mais. Que se machuca. Que brinca uns com os outros. E é uma música que toca muito porque acaba sendo muito verdadeira. “Writer In The Dark” fala sobre manter a memória de alguém viva após um término através da escrita e como é difícil seguir em frente sem essa pessoa. Temos músicas sobre toda uma gama de sentimentos e sensações que vagam pela mente de uma pessoa em algum momento e é extremamente relacionável. Talvez para alguns mais que para outros, mas acredito que quando a música fala sobre sentimentos reais e crus de uma forma real e crua, é difícil não ouvir e se sentir um pouco vulnerável ao que está sendo dito. Porque todos já estivemos nessas situações e ver como Lorde musicalizou e poetizou tudo isso é sensacional.

Cause I remember the rush, when forever was us
Before all of the winds of regret and mistrust
Now we sit in your car and our love is a ghost
Well I guess I should go
Yeah I guess I should go
Hard Feelings/Loveless

Então temos “Liability”, que merecia um post sobre para ela. Eu poderia apenas escrever “Liability foi escrita sobre mim, obrigada” e terminar esse post. A música foi lançada antes do CD completo então eu já estava em contato com ela fazia algumas semanas. Não é uma música que eu considero fácil de ouvir, porque no meu caso machuca muito o quanto ela é verdadeira e dolorida. Mas ao mesmo tempo, ela é um abraço por entender muito sentimentos tão profundos meus e tão vulneráveis. É bom naqueles momentos de crise conseguir ouvir algo que reflete tão bem e é tão sonoricamente agradável de se ouvir.

They say, “You’re a little much for me, you’re a liability
You’re a little much for me”
So they pull back, make other plans
I understand, I’m a liability
Get you wild, make you leave
I’m a little much for e-a-na-na-na, everyone
-Liability

Eu escrevo para me entender. Desde que eu me conheço por gente. Eu tenho poesias antigas que hoje considero horríveis, mas que contam pedaços da minha história e eu sei que me confortaram em momentos de necessidade. Talvez seja por isso que eu preciso tanto da letra da música. E talvez eu seja por isso que eu fique tão feliz quando ganho um combo de letras maravilhosas com uma sonoridade que faz todo o sentido com a proposta e com as emoções que as letras passam. Melodrama faz exatamente isso. As músicas fazem sentido em sua combinação letra e melodia e é por isso que eu gostei tanto. Reflete o que é ter vinte e poucos anos nesse mundo confuso de relacionamentos.

Não posso dançar as minhas poesias por aí, mas posso dançar as novas músicas da Lorde e isso com certeza é um processo curativo muito mais eficiente.