Cenas Londrinas, Virginia Woolf

A combinação de Virginia Woolf escrevendo sobre um dos meus lugares favoritos no mundo não poderia ter um resultado ruim. “Cenas Londrinas” é o compilado de seis ensaios sobre aspectos diferentes de Londres que Virginia Woolf apresenta ao leitor de uma forma mais objetiva e direta que suas narrativas mais famosas, que utilizam o fluxo de consciência.

Eu amo Virginia Woolf utilizando fluxo de consciência. Eu amo a profundidade que ela dá aos personagens e ao ambiente nos livros de ficção e nos contos. Como é apresentado na introdução dos ensaios e perceptível durante a leitura dos mesmos, a Virginia Woolf que os escreve é objetiva, clara e concisa nas informações que trás ao leitor. É diferente, mas eu não gosto nem um pouco menos. Eu senti que estava sendo apresentada a diversos locais de Londres por uma moradora local, que ia me falando suas opiniões, contando algumas histórias e inserindo alguns comentários cheios de ironia que só a Virginia Woolf consegue.

2017-07-17 012416

Virginia Woolf mostra aspectos opostos da mesma cidade ao caracterizar a chegada de produtos brutos em “As docas de Londres” e como esses produtos são transformados e comercializados para uma parte restrita da população em “Maré da Oxford Street”. Ambos ensaios são visivelmente interligados na questão de sentido, crítica e proposição de ideias.

“Lá nas docas vê-se as coisas em sua frieza, seu volume, sua enormidade. Aqui, em Oxford Street, elas se mostram refinadas e transformadas”

“Casa de grandes homens” é um ensaio onde Virginia Woolf analisa a moradia de escritores (Carlyle e Keats, principalmente) e comenta sobre como suas casas podem dizer mais sobre eles do que qualquer biografia já escrita sobre suas vidas. Ela então adentra cômodos e envolve o leitor da atmosfera que os escritores viveram e a partir de qual contexto suas obras puderam ser escritas e suas vidas, vividas. E unicamente, a partir desses contextos singulares, foi que as obras que eles produziram puderam ser produzidas da maneira que foram.

E foi esse ensaio que me deixou mais tempo pensando, porque eu também acredito que acabamos deixando uma marca nos lugares que vivemos. Seja a nossa forma de organizar ou desorganizar o ambiente. Os pertences que fazemos ocupar os espaços. As prioridades. As decorações. É muito único e as diferenças são muito perceptíveis. Muitas vezes eu percebo meu estado emocional pelo estado do meu quarto. Quanto mais bagunçado ele está e quanto mais dificuldade eu tenho em arrumar, é porque não é o quarto que está bagunçado, mas eu que estou bagunçada. O quarto é apenas um reflexo meu. E ele vai se moldando aos meus estados de ser ao longo dos meses e se adaptando a como eu estou me sentindo.

O que eu tenho nas paredes reflete o que eu quero ver todos os dias. O que eu tenho escondido dentro de uma caixa no fundo do armário reflete o que eu não quero ver, mas não tenho coragem de jogar no lixo. Os meus livros refletem pedaços meus. Os diferentes quartos que eu já tive na vida refletiram as diferentes etapas do meu desenvolvimento e todos eles, estão presentes no meu quarto atual, nem que seja uma boneca antiga no canto da prateleira que eu fico com dó de guardar em outro lugar. Essa nostalgia é parte minha. É ser quem eu sou. Se o meu quarto não fosse cheio que memórias, não seria meu.

Em “Abadias e Catedrais”, Woolf descreve o contraste entre a Catedral St. Paul e a Abadia de Westminster. Suas funções na cidade, seus propósitos internos, características de arquitetura e detalhes de qual tipo de pessoa se encontra enterrada em cada um dos locais.

Virginia Woolf segue comentando em “Esta é a Câmara dos Comuns” sobre aspectos mais voltado para política, como essa era tomada pelo papel masculino e sobre o local físico onde o papel da democracia era exercido.

“Vejamos se a democracia que enche os recintos não pode superar a aristocracia que esculpiu as estátuas. Mas existem ainda inúmeros policiais. Um gigante de azul permanece em pé ante cada porta para que não pressionemos com excessiva rapidez nossa democracia. “Entrada aos sábados somente das dez às 12 horas”. É o tipo de aviso que detém nosso progresso sonhador”

O último ensaio é intitulado “Retrato de uma Londrina” e é o único que conta com uma personagem, Mrs Crowe. Esse texto foi encontrado em 2005 e adicionado a coletânea já existente, que contava com os cinco ensaios iniciais. A edição brasileira foi lançada após essa data já com os seis ensaios juntos. Esse último texto difere dos outros por trazer uma personagem e não apenas a ambientação em Londres, mostrar a interação de Mrs Crowe com a cidade, seu dia-a-dia, hábitos e costumes.

Com esse texto, a visão de Londres que Virginia Woolf vinha trazendo ao leitor ganha um ar mais intimista, uma perspectiva mais afunilada. É um retrato de uma época, de uma pessoa, de um costume, de uma sociedade específica.

Eu amo Virginia Woolf. Não preciso tentar escrever bonito sobre como a narrativa dela é boa ou sobre como vale a pena ler as obras dela, acredito que ela faz isso muito bem por conta própria. Essa é uma coleção de ensaios ótima para ler em uma tarde com a companhia de um cházinho quente.

Título: Cenas Londrinas
Autora: Virginia Woolf
Editora: José Olympio
Páginas: 94
Compre o livro: Amazon

 

Desencontrando, eu me encontrei

A gente vai se conhecendo a partir do ambiente que nos cerca e do feedback que vamos recebendo das pessoas a respeito de quem somos, quem não somos, quem aparentamos ser. As vezes as pessoas ao nosso redor acertam e fazem com que tenhamos uma noção saudável sobre quem somos. As vezes estamos em um momento da vida onde conseguimos separar aquilo que a pessoa traz e que é apenas dela, aquilo que é em relação a nós e aquilo que é em relação a junção de duas vidas que está acontecendo naquele momento. As vezes estamos confusos demais e despersonalizados demais para fazer essa diferenciação e aceitamos tudo de todos sem discernir muito bem se aquilo que x está me dizendo realmente é aplicável a mim. Ou eu apenas fui lida de uma forma errada porque x tem lentes de contatos suas que fazem que x veja o mundo de uma forma específica.

Screenshot_2016-12-02-00-58-44-1

 

Nunca vou esquecer do dia que uma professora disse em uma aula que ninguém iria encontrar sua outra metade da laranja. Porque ninguém era uma metade da laranja. Cada um era uma laranja completa, que iria encontrar outra laranja completa e então duas laranjas completas iriam resolver que aquela companhia era agradável o suficiente para seguir a vida juntas.

Mas quando estamos em uma relação e quem somos não está tão claro assim, as coisas começam a ficar mais complicadas. Mais misturadas. E quando a outra pessoa parte, você não sabe mais o que era seu, o que era dela, o que era da relação, o que você quer que fique, o que você quer que mude. O que está acontecendo.

Tem toda a história de expectativas, quando nos encontramos com uma pessoa. Encontramos no sentido que sentimos estar no mesmo modo de pensar do outro. Com expectativas parecidas. Com desejos parecidos. Com ideias sobre o que é tratar uma outra pessoa bem parecidas. E por aí vai. Muito além de um simples encontro físico. Esse outro tipo de encontro envolve muito. Eu não sei porque, quando eu devia ter uns oito anos, eu achei que teria sorte na vida na questão de encontrar pessoas. Talvez eu tenha assistido muitos filmes da Disney, mas confesso que tem sido uma aprendizagem interessante todos os mais diversos desencontros que eu encontrei no meu caminho.

Alguns mais traumáticos que outros, alguns mais estúpidos que outros, alguns mais tranquilos que outros, eu descobri que me desencontrando com tanta gente foi que eu comecei a me encontrar de verdade. Foi não permitindo que as pessoas tivessem uma visão distorcida minha que eu descobri qual era a visão que eu tinha de mim mesma. Foi estabelecendo limites que eu descobri até onde eu aceitava flexibilizar. Foi quando eu ouvia “tu é … “, que eu me contorcia por dentro e pensava que eu não sou nada que eu não queira ser. Que eu não sou uma visão planificada de uma pessoa que me conhece a poucas horas e acha que sabe todas as curvas, desvios e atalhos do meu ser. Nem eu sei.

O encontro de dois mundos é impactante e eu acho que deve ser visto como algo importante. As pessoas se influenciam, se afetam e é mágico como essa troca tem consequências. Pode doer e pode fazer crescer. Na maioria das vezes dói e com a dor a gente cresce. E dói porque somos descuidados como seres humanos com outros seres humanos. Faz parte. Eu queria chegar a uma conclusão de que existe uma receita especial que poupe todo esse desgaste emocional, mas a única conclusão que eu cheguei é que me desencontrando dos outros e me desencontrando de mim mesma é que eu encontrei a estrada certa para voltar a me encontrar. É simplesmente confuso assim.

 

Prazer, liberdade

É difícil falar de liberdade. Principalmente quando se estuda psicologia e cada teoria tem a sua própria visão sobre o que é liberdade e se somos ou não realmente livres. Eu pensei em psicologizar esse texto, mas, pensei que talvez um dos motivos para a sensação de sufocamento é ir buscar explicações teóricas para todos os sentimentos que se tem e não se permitir realmente sentir. Só sentir. Sem tentar entender os porquês e sem tentar travar, frear e amenizar. Sentir com a plena força do que vier. Não é tão fácil como parece. Mas enfim, sem me importar em soar inteligente ou em impressionar seres inexistentes: a sensação de liberdade existe. Existe porque eu senti ela. Existe porque eu sinto falta dela nos dias que eu acordo e me sinto sufocada.

20161101_101021

Eu fiz intercâmbio de agosto a janeiro do ano passado (2016-2017) e esse texto começou a ser escrito antes do meu retorno ao Brasil. A vida aconteceu e eu acabei esquecendo que ele existia até encontrar nos rascunhos e resolver que é um assunto que talvez seja interessante discutir. Ajustes foram feitos no que eu já tinha escrito, mas a ideia é realmente transitar entre sentimentos de lá e de cá.

Na época, antes de eu ir, Porto Alegre me colocava dentro de uma caixa. Em uma caixa pequena, apertada, sufocante. Onde eu ia, a sensação de não conseguir respirar me perseguia e estava chegando em um ponto onde não era mais saudável. Não é saudável sair de casa com uma sensação de aperto constante no peito. Não é saudável ficar verificando os confirmados em eventos do Facebook para decidir ou não se tu vai ir. Não é saudável tomar decisões se baseando em outros. Que estão tão longe e se importam tão pouco. O sufoco é olhar por todas as janelas e ver grades. É precisar se programar tão bem para fazer atividades tão simples por segurança. É estar sempre atenta. Sempre prestando atenção nos arredores. Sempre ligada na mochila, celular, livro, corpo…

20161212_094753

Então eu saí. A vida tem sido bem legal comigo em me proporcionar momentos de fuga em períodos específicos da vida. O momento de agosto do ano passado veio muito bem. Porque as vezes não basta estar longe em um sentido figurativo, as vezes é preciso entrar em um avião e partir para quilômetros e quilômetros de distância, esperando que assim, a mente compreenda uma questão ou duas. As vezes é preciso realmente ir para longe para uma desintoxicação de tudo que te diminui, te cansa e te exausta diariamente. E não deveria. Nem todos os dias deveriam ser batalhas travadas com tanto afinco.

Desde que o momento que eu cheguei na Holanda, eu não senti mais sufocamento nenhum. Eu conseguia respirar de uma maneira como não conseguia a tanto tempo. Eu conseguia ir a lugares e viver da forma mais genuína que eu já vivi. Eu era eu. Eu fui a versão mais eu que eu já fui em toda a minha vida. Não era eu em conflito comigo mesma. Não era eu em conflito com fantasmas. Não era eu em conflito com resquícios que eu esqueci em esquinas desertas e ruas movimentadas. Era apenas eu. Da forma que eu sentia que deveria ser. Da forma que eu me sentia livre. Eu me senti muito livre.

20161221_210750

Os momentos que mais me impressionavam e eu chegava a sentir meu corpo todo arrepiar com a sensação era quando eu voltava de madrugada para casa de bicicleta, as ruas vazias, escuras, o frio confortável, o silêncio que no início me era ensurdecedor e eu precisava ouvir música e depois eu aprendi a apreciar o silêncio por ser quem ele era no seu ser mais próprio e mais quieto e mais assustador. Nessas horas, eu acelerava bastante e em inclinações de descida da rua, eu soltava a força e deixava a bicicleta me levar. Eu deixava o vento tocar no meu rosto e empurrar meus cabelos para trás. Eu sempre sorria. Ás vezes eu chorava.

O meu maior medo de voltar era perder essa sensação. Era voltar a sentir um sufoco sem fim e sentir uma vida emprisionada. Mas acho que quando se aprende uma sensação nova, nosso corpo passa a aprender a buscá-la. E a única coisa que precisamos fazer é nos ouvir atentamente para descobrir onde encontrar pedaços de liberdade escondidos em lugares enclausurados. Porto Alegre não é uma cidade que faz com que eu me sinta livre todas as vezes que eu piso na rua. Nunca foi e infelizmente eu acho difícil que venha a ser. Mas eu não me sinto mais (tão) sufocada. Eu aprendi que a liberdade também pode ser encontrada em pequenos momentos, em pessoas e em lugares específicos. Não é mais uma constante como foi naqueles seis meses, mas não somos mais estranhas uma para outra. Gabriele conhece liberdade e liberdade conhece Gabriele. E de tempos em tempos nos reencontramos por aí, como velhas amigas que tem muito o que conversar.

 

 

 

 

Quando um livro te entende

Meu amor por Clarice Lispector não é novidade. Eu coloco ela no mesmo nível de Sylvia Plath e Virginia Woolf, completando o meu trio de autoras incríveis que eu sou levemente obcecada. Aos poucos eu vou lendo os livros que faltam da obra delas e mesmo com as expectativas sempre altas, eu continuo me surpreendendo.

2017-05-12 18.21.21

“Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” foi publicado pela primeira vez em 1969 e eu me senti tão compreendida por esse livro que passei boa parte da leitura abraçada nele. Porque quando o livro me compreende assim, eu preciso abraçá-lo e agradecer por permitir que eu não me sinta tão sozinha no mundo com os meus sentimentos que as vezes são tão confusos e bagunçados.

Sobre o que é o livro?

Como em todas as obras de Clarice Lispector, ‘Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres’ é um ponto de vista feminino a respeito da vida. Lóri, na verdade, é a personagem central, enquanto Ulisses ocupa um papel secundário, mero referencial para os pensamentos e atitudes de Lóri. O livro conta, acima de tudo, a viagem empreendida por Lóri em busca de si própria e do prazer sem culpa. Uma viagem na qual Ulisses funciona como um farol, indicando onde estão os perigos e o caminho correto para a aprendizagem do amor e da vida (GoodReads)

Lóri é uma personagem que está em busca de si. Em busca de uma vida sem medo, em busca de um prazer sem culpa e em busca de se atirar para uma felicidade sem angústia de sofrer. É uma personagem que foge da dor e justamente por fugir da dor, foge da vida.

“O que acontecia na verdade com Lóri é que, por alguma decisão tão profunda que os motivos lhe escapavam — ela havia por medo cortado a dor. Só com Ulisses viera aprender que não se podia cortar a dor — senão se sofreria o tempo todo.”

Não é um livro de romance, onde a mocinha quer o mocinho. É um livro de uma jornada interna de uma mulher. E é maravilhoso.

Agora, como esse livro pode entender uma pessoa de vinte anos em pleno 2017? Porque eu sou uma mulher e eu estou em uma jornada. E sentimentos são sentimentos, independentemente de quando são sentidos. Angústias existem. Medos existem. Desejos existem. Amores existem. A busca por um ser mais próprio e mais independente existe. A busca por uma essência mais própria existe. E eu senti que esse livro compreendeu toda a montanha-russa que é passar por essa jornada. E entendeu que o ser-no-mundo é um processo que não termina. É um processo de crescimento e mudança constante. É um processo que assusta muito. E é um processo muito incrível de se passar.

“Era cruel o que fazia consigo própria: aproveitar que estava em carne viva para se conhecer melhor, já que a ferida estava aberta”

A jornada de autoconhecimento é dolorida. É comum querer fugir da dor. Ninguém quer sentir dor, contudo, o processo de vir-a-ser só vai acontecer a partir do contato com a dor e com a essência do ser. Meus textos que deram origem a essa nova fase do blog (eles tem a marcação de gostaria de dizer nas categorias) marcam muito esse momento na minha vida. Um momento que eu, que não sou Clarice Lispector, falo que encarei o fundo do poço e resolvi lidar com a situação e entrei em um processo de autoconhecimento e transformação. “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” fala dessa jornada com uma prosa poética, uma narrativa bem construída e sensacional.

“Lóri se cansava muito porque ela não parava de ser”

Nessa jornada em busca de si, muitas vezes precisamos arriscar. Arriscar cair no fundo do poço de novo, depois de levar tanto tempo para sair de lá e finalmente ter nos reencontrado com a felicidade, com a gente mesmo, com a nossa essência de ser. Quando estamos em relações com outros indivíduos, nós não temos garantia de nada. De finais felizes, de que as pessoas não vão ser idiotas, de que a gente não vai estragar tudo. Não existe garantia nenhuma e a gente tem duas opções: não arriscar e continuar em uma vida ok ou arriscar e ter a chance de ter momentos mais extraordinários, onde sentimos que realmente estamos vivendo. Talvez a gente caia no fundo do poço de novo, mas a jornada de encontro a si funciona para entendermos e confiarmos que somos mais do que capaz de sair de lá, sempre. E chega um momento e que cair e levantar vira parte da vida e não vai mais assustar tanto (ainda não cheguei lá, mas o importante é a caminhada).

“Para aprender a alegria você precisa de todas as garantias?”

Eu andei vivendo essa crise nos últimos meses, então o livro tocou na ferida, abraçou a ferida e ouso dizer e curou um pouco da ferida. Eu podia colocar aqui todas as várias frases que eu assinalei durante a minha leitura, aquelas que eu assinalei com !!!! nas margens porque eu fiquei sem palavras para retratar o meu amor por simples palavras, mas vou resumir tudo com a minha modesta recomendação de leitura. E de pensamento. Pensar sobre essa jornada é algo verdadeiramente maravilhoso. Principalmente quando esse pensamento é orquestrado pela Clarice Lispector. Que mulher maravilhosa.

Compre o livro

Uma Jornada à Noruega 2/3

Eu sempre duvidei da minha capacidade de viajar sozinha. Acredito que essa dúvida venha de algumas relações onde as pessoas fizeram com que eu me sentisse incapaz, pequena, menos e que as minhas decisões e minha opções eram menos do que as dessas pessoas. Acontece que depois de viajar, conhecer gente fazendo as viagens mais diversas possíveis e pensar bastante sobre tudo isso enquanto caminhava por aí (nas fotos desse post, na cidade maravilhosa de Estocolmo, Suécia) eu cheguei a conclusão e abracei essa conclusão com toda a força possível, que não existe um tipo certo/melhor de viagem.

dsc06927

 

Não é melhor/pior/mais cool/ mais brega viajar de avião, ônibus, trem, carro, carona, bicicleta, etc. Durante tanto tempo eu deixei as opiniões de outras pessoas me afetarem que só porque eu não toparia uma viagem de carona por aí, eu não era legal suficiente. Eu não era divertida, alternativa o suficiente para esse mundo bizarro que vivemos atualmente. Foi um momento de libertação tão grande, quando eu finalmente consegui me livrar de todas as vozes e todas essas ideias sem sentido e pensar que: no fundo, não importa como eu chego nos lugares e sim que eu estou chegando neles.

Eu não posso ficar estagnada porque viajar de avião é careta se é um avião que vai me levar da forma mais barata/rápida/fácil para os lugares que eu quero ir. Como eu também vou passar dez horas em um ônibus – que seja minimamente confortável e seguro – para chegar em outros.

dsc06876

Parece muito simples. O processo de libertação dessas ideias. Mas acho que depois de ter gente que tu considerou tanto por tanto tempo te dizer tantas coisas que machucam, esses machucados levam um tempo para cicatrizar. E depois leva um tempo maior ainda para a cicatriz ficar pequenininha, quase invisível. Escandinávia me proporcionou essa libertação. De me encontrar novamente com quem eu sou, quem eu sei que eu sou e quem eu amo ser. Sem influências, opiniões e pitacos de ninguém. Apenas eu.

Eu cheguei na Escandinávia do meu jeito chato de viajar. E a única coisa que eu conseguia pensar era que chato seria, ficar esperando a aprovação de uma pessoa que tanto não se importa com os sentimentos dos outros. Que atira palavras como balas sem se importar quem atinge.

dsc06865

Eu vou continuar conhecendo o mundo desse meio jeito sem graça. Chato. Tedioso. Brega. O mundo é maravilhoso demais para eu me importar com detalhes e para eu me importar ser humanos que não se importam com nada. E eu espero que os jeitos alternativos, legais, rebeldes e aventurosos aprendam que não existe um jeito certo de ir.

dsc06831

Dor

Assim que eu abri os olhos, senti uma pontada na parte frontal do lado direito da cabeça. E em seguida, senti outra. E outra. E outra. E antes que eu pudesse me convencer a levantar e começar o dia, cogitei se não seria melhor se tudo explodisse de uma vez. Se a dor não se tornasse tão insuportável que eu desligasse. Cogitei esse caminho. Uma simples explosão e fim. Talvez fosse melhor do que levantar e lidar com pontadas e apertões por dias e dias sem fim. Talvez.

 

Outubro

Eu gostaria de ter dito que hoje não choveu. Pela primeira vez em uma semana. Meu corpo estranhou o céu azul, os raios de sol e o brilho todo. Meu corpo estranhou toda aquela luz, toda aquela energia que preenchia instantaneamente todos os cômodos da casa. Eu gostaria de ter dito que meu corpo rejeitou toda a energia positiva que estava chegando com uma força estrondosa. É a velha história que sinais opostos se repelem. Um corpo com sinal positivo e um corpo com sinal negativo, origina um resultado negativo. O resultado negativo foi que eu fechei as cortinas e, no meio de tanta luz, só conseguia ver toda a luz iluminando a bagunça que você deixou quando resolveu que era demais. Quando me deixou com um temporal que durou sete dias sem fim. O ambiente estava pronto para ficar bem, cheio de luz e sol e flores novamente. Eu ainda não. Eu iria precisar de mais de sete dias. Um pouco mais do que míseros sete dias.