Quando um livro te entende

Meu amor por Clarice Lispector não é novidade. Eu coloco ela no mesmo nível de Sylvia Plath e Virginia Woolf, completando o meu trio de autoras incríveis que eu sou levemente obcecada. Aos poucos eu vou lendo os livros que faltam da obra delas e mesmo com as expectativas sempre altas, eu continuo me surpreendendo.

2017-05-12 18.21.21

“Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” foi publicado pela primeira vez em 1969 e eu me senti tão compreendida por esse livro que passei boa parte da leitura abraçada nele. Porque quando o livro me compreende assim, eu preciso abraçá-lo e agradecer por permitir que eu não me sinta tão sozinha no mundo com os meus sentimentos que as vezes são tão confusos e bagunçados.

Sobre o que é o livro?

Como em todas as obras de Clarice Lispector, ‘Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres’ é um ponto de vista feminino a respeito da vida. Lóri, na verdade, é a personagem central, enquanto Ulisses ocupa um papel secundário, mero referencial para os pensamentos e atitudes de Lóri. O livro conta, acima de tudo, a viagem empreendida por Lóri em busca de si própria e do prazer sem culpa. Uma viagem na qual Ulisses funciona como um farol, indicando onde estão os perigos e o caminho correto para a aprendizagem do amor e da vida (GoodReads)

Lóri é uma personagem que está em busca de si. Em busca de uma vida sem medo, em busca de um prazer sem culpa e em busca de se atirar para uma felicidade sem angústia de sofrer. É uma personagem que foge da dor e justamente por fugir da dor, foge da vida.

“O que acontecia na verdade com Lóri é que, por alguma decisão tão profunda que os motivos lhe escapavam — ela havia por medo cortado a dor. Só com Ulisses viera aprender que não se podia cortar a dor — senão se sofreria o tempo todo.”

Não é um livro de romance, onde a mocinha quer o mocinho. É um livro de uma jornada interna de uma mulher. E é maravilhoso.

Agora, como esse livro pode entender uma pessoa de vinte anos em pleno 2017? Porque eu sou uma mulher e eu estou em uma jornada. E sentimentos são sentimentos, independentemente de quando são sentidos. Angústias existem. Medos existem. Desejos existem. Amores existem. A busca por um ser mais próprio e mais independente existe. A busca por uma essência mais própria existe. E eu senti que esse livro compreendeu toda a montanha-russa que é passar por essa jornada. E entendeu que o ser-no-mundo é um processo que não termina. É um processo de crescimento e mudança constante. É um processo que assusta muito. E é um processo muito incrível de se passar.

“Era cruel o que fazia consigo própria: aproveitar que estava em carne viva para se conhecer melhor, já que a ferida estava aberta”

A jornada de autoconhecimento é dolorida. É comum querer fugir da dor. Ninguém quer sentir dor, contudo, o processo de vir-a-ser só vai acontecer a partir do contato com a dor e com a essência do ser. Meus textos que deram origem a essa nova fase do blog (eles tem a marcação de gostaria de dizer nas categorias) marcam muito esse momento na minha vida. Um momento que eu, que não sou Clarice Lispector, falo que encarei o fundo do poço e resolvi lidar com a situação e entrei em um processo de autoconhecimento e transformação. “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” fala dessa jornada com uma prosa poética, uma narrativa bem construída e sensacional.

“Lóri se cansava muito porque ela não parava de ser”

Nessa jornada em busca de si, muitas vezes precisamos arriscar. Arriscar cair no fundo do poço de novo, depois de levar tanto tempo para sair de lá e finalmente ter nos reencontrado com a felicidade, com a gente mesmo, com a nossa essência de ser. Quando estamos em relações com outros indivíduos, nós não temos garantia de nada. De finais felizes, de que as pessoas não vão ser idiotas, de que a gente não vai estragar tudo. Não existe garantia nenhuma e a gente tem duas opções: não arriscar e continuar em uma vida ok ou arriscar e ter a chance de ter momentos mais extraordinários, onde sentimos que realmente estamos vivendo. Talvez a gente caia no fundo do poço de novo, mas a jornada de encontro a si funciona para entendermos e confiarmos que somos mais do que capaz de sair de lá, sempre. E chega um momento e que cair e levantar vira parte da vida e não vai mais assustar tanto (ainda não cheguei lá, mas o importante é a caminhada).

“Para aprender a alegria você precisa de todas as garantias?”

Eu andei vivendo essa crise nos últimos meses, então o livro tocou na ferida, abraçou a ferida e ouso dizer e curou um pouco da ferida. Eu podia colocar aqui todas as várias frases que eu assinalei durante a minha leitura, aquelas que eu assinalei com !!!! nas margens porque eu fiquei sem palavras para retratar o meu amor por simples palavras, mas vou resumir tudo com a minha modesta recomendação de leitura. E de pensamento. Pensar sobre essa jornada é algo verdadeiramente maravilhoso. Principalmente quando esse pensamento é orquestrado pela Clarice Lispector. Que mulher maravilhosa.

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