Melodramática

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Sempre que me perguntam que estilo de música eu gosto, tenho um pouco de dificuldade de responder. Os ritmos podem variar bastante, dependem bastante do meu humor da época, mas se tem alguma constante nessa história toda que eu dou importância é a letra da música. Parecido com o que eu falei nesse texto aqui, eu gosto de deixar a música conversar comigo. As vezes é uma conversa interessante, mas que eu não tenho vontade de repetir e as vezes é algo maravilhoso que eu preciso revisitar uma quantidade absurda de vezes porque existe uma intersecção muito grande entre eu e a música. A música é um pouco de mim e eu sou um pouco da música. Existe algo que nos conecta que é mais do que um ritmo bom. Algum artista com uma voz boa. É uma poesia. É algo que diz “ei, eu sei o que tu sentiu, está sentindo ou vai sentir”. E é um conforto absurdo.

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Não é algo que acontece com muita frequência. Contudo, de tempos em tempos, aparece um CD novo que me deixa maravilhada. Aparece uma música que me toca fundo. Que mexe comigo como se quem escreveu conhecesse meus medos e sentimentos mais profundos, aqueles que eu tanto sofro para colocar no papel, para transformar em palavras. Ver o que eu sinto verbalizado e musicalizado é mágico. É terapêutico.

Eu nunca falei sobre música porque eu não me considero uma grande entendedora de música. Mas eu gosto de tentar entender sentimentos. “Melodrama”, o novo CD da Lorde entendeu sentimentos meus desses últimos dois anos que eu nem sabia que precisavam ser entendidos.

‘Cause honey I’ll come get my things, but I can’t let go
I’m waiting for it, that green light, I want it
Oh, I wish I could get my things and just let go
 I’m waiting for it, that green light, I want it
-Green Light

Lorde tem a minha idade, então estamos transitando simultaneamente pelos vinte anos e é uma grande aventura. Transitamos simultaneamente também por um primeiro término. Por uma primeira jornada de autoconhecimento, liberdade e início da vida adulta. Sobre ser jovem e estar se descobrindo e descobrindo como atravessar os buracos que aparecem no caminho a todo tempo.

Meu desejo era escrever sobre as minhas músicas favoritas, até perceber que eu iria escrever sobre cada uma do CD. Então vou tentar abordar de uma forma geral e especifica simultaneamente e esperar que dê certo.

I’ll give you my best side, tell you all my best lines
Seeing me rolling, showing someone else love
Dancing with our shoes off
Know I think you’re awesome, right?
-Homemade Dynamite

As músicas tem um ritmo pop que dão vontade de desligar as luzes do quarto e dançar sozinha como se estivesse em uma festa lotada. E ao mesmo tempo que elas em sua maioria tem um ritmo mais agitado e “para cima”, as letras não pecam na reflexividade sobre esse período da vida. Existe a questão de tentar seguir em frente e ter dificuldades, de esperar um sinal (Green Light) para deixar tudo para trás e seguir outros caminhos. Lorde aborda a questão de festas, experiências novas, ficadas, a sensação que se tem quando se ‘apaixona’ por uma pessoa muito rápido em uma festa e todos aqueles sentimentos acelerados aparecem (Sober).

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Temos confusões sobre ainda gostar de alguém ou não (Hard Feelings/Loveless) e sobre uma geração que não ama mais. Que se machuca. Que brinca uns com os outros. E é uma música que toca muito porque acaba sendo muito verdadeira. “Writer In The Dark” fala sobre manter a memória de alguém viva após um término através da escrita e como é difícil seguir em frente sem essa pessoa. Temos músicas sobre toda uma gama de sentimentos e sensações que vagam pela mente de uma pessoa em algum momento e é extremamente relacionável. Talvez para alguns mais que para outros, mas acredito que quando a música fala sobre sentimentos reais e crus de uma forma real e crua, é difícil não ouvir e se sentir um pouco vulnerável ao que está sendo dito. Porque todos já estivemos nessas situações e ver como Lorde musicalizou e poetizou tudo isso é sensacional.

Cause I remember the rush, when forever was us
Before all of the winds of regret and mistrust
Now we sit in your car and our love is a ghost
Well I guess I should go
Yeah I guess I should go
Hard Feelings/Loveless

Então temos “Liability”, que merecia um post sobre para ela. Eu poderia apenas escrever “Liability foi escrita sobre mim, obrigada” e terminar esse post. A música foi lançada antes do CD completo então eu já estava em contato com ela fazia algumas semanas. Não é uma música que eu considero fácil de ouvir, porque no meu caso machuca muito o quanto ela é verdadeira e dolorida. Mas ao mesmo tempo, ela é um abraço por entender muito sentimentos tão profundos meus e tão vulneráveis. É bom naqueles momentos de crise conseguir ouvir algo que reflete tão bem e é tão sonoricamente agradável de se ouvir.

They say, “You’re a little much for me, you’re a liability
You’re a little much for me”
So they pull back, make other plans
I understand, I’m a liability
Get you wild, make you leave
I’m a little much for e-a-na-na-na, everyone
-Liability

Eu escrevo para me entender. Desde que eu me conheço por gente. Eu tenho poesias antigas que hoje considero horríveis, mas que contam pedaços da minha história e eu sei que me confortaram em momentos de necessidade. Talvez seja por isso que eu preciso tanto da letra da música. E talvez eu seja por isso que eu fique tão feliz quando ganho um combo de letras maravilhosas com uma sonoridade que faz todo o sentido com a proposta e com as emoções que as letras passam. Melodrama faz exatamente isso. As músicas fazem sentido em sua combinação letra e melodia e é por isso que eu gostei tanto. Reflete o que é ter vinte e poucos anos nesse mundo confuso de relacionamentos.

Não posso dançar as minhas poesias por aí, mas posso dançar as novas músicas da Lorde e isso com certeza é um processo curativo muito mais eficiente.

Uma Jornada à Noruega 3/3

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Depois de alguns meses do meu retorno ao Brasil e alguns meses que todas as minhas viagens aconteceram, eu me sentei para organizar álbuns de fotos. Não os eletrônicos, mas os de verdade mesmo. Aqueles que talvez estejam quase entrando em extinção e talvez a dificuldade que eu tive para encontrar uma variedade satisfatória de álbuns nas lojas prove isso. A verdade é que o processo de seleção das fotos e depois o processo de organização delas foi extremamente nostálgico, sentimental e um pouquinho dolorido, preciso admitir. Também, me levantou uma questão que eu comecei a pensar em Estocolmo e passou a permear todas as minhas viagens desde então: minha relação com museus, obras de arte e fotografia.

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Começou em Estocolmo porque foi lá que eu decidi fazer algo completamente fora da minha zona de conforto e visitar um museu de fotografia, o Fotografiska. Eu digo fora da minha zona de conforto porque eu nunca me vi interessada por fotografia. Sempre foi algo que eu tirei para registrar momentos, mas nunca muito preocupada com estética. E um museu de fotografia me soava extremamente alternativo e cool para uma pessoa como eu. Para uma pessoa que era eu. Aí entramos também na questão de pré-julgar coisas com base em ideais que nós colocamos nelas e que no fundo, não tem muito a ver. Qualquer ser pode ir em um museu de fotografia e se relacionar com ele. E foi isso que eu senti.

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Eu sempre me relacionei com histórias que li em livros. Sempre foi muito fácil para mim me relacionar com o ambiente e personagens criados pelos autores, suas mais diversas experiências de vida e tudo mais. Essa era o tipo de arte que eu me sentia confortável em consumir. Que eu me sentia capaz de compreender. De me relacionar com. O Fotografiska foi uma experiência que mudou minha vida porque me mostrou que eu posso compreender fotografia em um nível muito mais íntimo do que achei que poderia. Que a foto pode conversar comigo. É só eu me abrir para ela e deixar ela me contar sua história. A partir daquele momento, eu me senti capaz de consumir arte de uma forma completamente diferente e isso mudou significativamente minha experiência em um continente que tem tanta arte por todos os lados. E fez com que passeios por museus se tornassem uma troca de histórias. E fez com que eu entrasse em museus que nunca pensei que fosse entrar e ao entrar de coração aberto, me permiti ser surpreendida.

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Eu não preciso entender tecnicamente a arte. Eu não preciso ser artista. Eu não preciso saber de cor os nomes dos pintores mais famosos. Eu não preciso entender movimentos de épocas diferentes ou saber exatamente qual quadro é de quem ou porque o quadro x fez sucesso na época y. Se eu quiser, eu posso ir atrás é claro, mas eu aprendi que nada disso é pré-requisito para apreciar arte. Eu posso apreciar arte do meu jeito e não pode existir um jeito certo e um errado de fazer isso. Eu posso dizer que para mim, apreciar arte é parar na frente de um quadro que no meio de mais quinze me chamou mais atenção e conversar com ele. Ver o que ele me diz. Qual sentimento ele grita. Se ele grita. Se ele chora. Se ele ri. Porque quadros fazem isso, eu descobri. Esculturas dançam.

DSC06974E eu também aprendi que me expondo a diversos tipos de museus, eu posso descobrir o que eu gosto mais e eu posso aprender a diferenciar as mais diversas formas de exibir arte que existem por aí. Em Oslo, eu comprei o Oslo Pass que pelo valor, me dava acesso a praticamente todos os museus da cidade e fiz muito bom uso disso.

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Talvez eu não tivesse visitado o museu dos barcos vikings e talvez eu não tivesse tido uma experiência sensacional como eu tive. E talvez eu não tivesse tido a chance de entrar em vários museus, dar uma olhadinha e descobrir que não era para mim. De entender que arte moderna contemporânea talvez esteja mais avançada para o meu nível de conversação com as obras. Não rolou diálogo, mas eu estava lá e eu dei uma chance.

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E arte vai muito além daquilo que está dentro dos museus. É aquele prédio que fez com que eu atravessasse a rua para ver mais de perto. Que fez com que eu observasse e sorrisse pensando “que coisa linda de se ter no meio de uma rua qualquer”. É um parque de estátuas que te deixa completamente absorta do mundo. Talvez pensando “e se todas elas criarem vida nesse exato momento”, mas também pensando que a vida é meio mágica. É como as folhas caem no chão no outono e é como a paisagem fica toda em uma paleta de tons laranja. A arte só é arte porque alguém é cada pedacinho da vida é um pouco arte e felizmente existem pessoas com olhos que veem isso.

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Recomendação de livro:

São Paulo (julho, 2016)

Aos pouquinhos a gente vai conhecendo os muitos lugares desse mundo. E registrando com umas fotos, torcendo muito para que nem todas saiam tremidas e estranhas, já que quem escreve essas palavras não tem muito talento para fotografia.

E é muito bom quando no meio dessas andanças podemos parar de admirar uns quadros de anos e anos atrás. E outros de anos recentes. E pensar no porquê aquelas pessoas que me encaram cheias de tinta parecem tão tristes. Ou se é uma projeção minha.

São Paulo foi uma viagem curta e uma viagem necessária para uma outra aventurinha que está para começar. E essa sim, julho, vai ser para tirar qualquer tristeza que esteja se escondendo nos cantinhos da alma.