Uma Jornada à Noruega 3/3

20161021_135557

Depois de alguns meses do meu retorno ao Brasil e alguns meses que todas as minhas viagens aconteceram, eu me sentei para organizar álbuns de fotos. Não os eletrônicos, mas os de verdade mesmo. Aqueles que talvez estejam quase entrando em extinção e talvez a dificuldade que eu tive para encontrar uma variedade satisfatória de álbuns nas lojas prove isso. A verdade é que o processo de seleção das fotos e depois o processo de organização delas foi extremamente nostálgico, sentimental e um pouquinho dolorido, preciso admitir. Também, me levantou uma questão que eu comecei a pensar em Estocolmo e passou a permear todas as minhas viagens desde então: minha relação com museus, obras de arte e fotografia.

DSC06948

Começou em Estocolmo porque foi lá que eu decidi fazer algo completamente fora da minha zona de conforto e visitar um museu de fotografia, o Fotografiska. Eu digo fora da minha zona de conforto porque eu nunca me vi interessada por fotografia. Sempre foi algo que eu tirei para registrar momentos, mas nunca muito preocupada com estética. E um museu de fotografia me soava extremamente alternativo e cool para uma pessoa como eu. Para uma pessoa que era eu. Aí entramos também na questão de pré-julgar coisas com base em ideais que nós colocamos nelas e que no fundo, não tem muito a ver. Qualquer ser pode ir em um museu de fotografia e se relacionar com ele. E foi isso que eu senti.

DSC06959

Eu sempre me relacionei com histórias que li em livros. Sempre foi muito fácil para mim me relacionar com o ambiente e personagens criados pelos autores, suas mais diversas experiências de vida e tudo mais. Essa era o tipo de arte que eu me sentia confortável em consumir. Que eu me sentia capaz de compreender. De me relacionar com. O Fotografiska foi uma experiência que mudou minha vida porque me mostrou que eu posso compreender fotografia em um nível muito mais íntimo do que achei que poderia. Que a foto pode conversar comigo. É só eu me abrir para ela e deixar ela me contar sua história. A partir daquele momento, eu me senti capaz de consumir arte de uma forma completamente diferente e isso mudou significativamente minha experiência em um continente que tem tanta arte por todos os lados. E fez com que passeios por museus se tornassem uma troca de histórias. E fez com que eu entrasse em museus que nunca pensei que fosse entrar e ao entrar de coração aberto, me permiti ser surpreendida.

DSC06965

Eu não preciso entender tecnicamente a arte. Eu não preciso ser artista. Eu não preciso saber de cor os nomes dos pintores mais famosos. Eu não preciso entender movimentos de épocas diferentes ou saber exatamente qual quadro é de quem ou porque o quadro x fez sucesso na época y. Se eu quiser, eu posso ir atrás é claro, mas eu aprendi que nada disso é pré-requisito para apreciar arte. Eu posso apreciar arte do meu jeito e não pode existir um jeito certo e um errado de fazer isso. Eu posso dizer que para mim, apreciar arte é parar na frente de um quadro que no meio de mais quinze me chamou mais atenção e conversar com ele. Ver o que ele me diz. Qual sentimento ele grita. Se ele grita. Se ele chora. Se ele ri. Porque quadros fazem isso, eu descobri. Esculturas dançam.

DSC06974E eu também aprendi que me expondo a diversos tipos de museus, eu posso descobrir o que eu gosto mais e eu posso aprender a diferenciar as mais diversas formas de exibir arte que existem por aí. Em Oslo, eu comprei o Oslo Pass que pelo valor, me dava acesso a praticamente todos os museus da cidade e fiz muito bom uso disso.

DSC07016

Talvez eu não tivesse visitado o museu dos barcos vikings e talvez eu não tivesse tido uma experiência sensacional como eu tive. E talvez eu não tivesse tido a chance de entrar em vários museus, dar uma olhadinha e descobrir que não era para mim. De entender que arte moderna contemporânea talvez esteja mais avançada para o meu nível de conversação com as obras. Não rolou diálogo, mas eu estava lá e eu dei uma chance.

DSC07173

E arte vai muito além daquilo que está dentro dos museus. É aquele prédio que fez com que eu atravessasse a rua para ver mais de perto. Que fez com que eu observasse e sorrisse pensando “que coisa linda de se ter no meio de uma rua qualquer”. É um parque de estátuas que te deixa completamente absorta do mundo. Talvez pensando “e se todas elas criarem vida nesse exato momento”, mas também pensando que a vida é meio mágica. É como as folhas caem no chão no outono e é como a paisagem fica toda em uma paleta de tons laranja. A arte só é arte porque alguém é cada pedacinho da vida é um pouco arte e felizmente existem pessoas com olhos que veem isso.

DSC07223

Recomendação de livro:

Anúncios

Uma Jornada à Noruega 2/3

Eu sempre duvidei da minha capacidade de viajar sozinha. Acredito que essa dúvida venha de algumas relações onde as pessoas fizeram com que eu me sentisse incapaz, pequena, menos e que as minhas decisões e minha opções eram menos do que as dessas pessoas. Acontece que depois de viajar, conhecer gente fazendo as viagens mais diversas possíveis e pensar bastante sobre tudo isso enquanto caminhava por aí (nas fotos desse post, na cidade maravilhosa de Estocolmo, Suécia) eu cheguei a conclusão e abracei essa conclusão com toda a força possível, que não existe um tipo certo/melhor de viagem.

dsc06927

 

Não é melhor/pior/mais cool/ mais brega viajar de avião, ônibus, trem, carro, carona, bicicleta, etc. Durante tanto tempo eu deixei as opiniões de outras pessoas me afetarem que só porque eu não toparia uma viagem de carona por aí, eu não era legal suficiente. Eu não era divertida, alternativa o suficiente para esse mundo bizarro que vivemos atualmente. Foi um momento de libertação tão grande, quando eu finalmente consegui me livrar de todas as vozes e todas essas ideias sem sentido e pensar que: no fundo, não importa como eu chego nos lugares e sim que eu estou chegando neles.

Eu não posso ficar estagnada porque viajar de avião é careta se é um avião que vai me levar da forma mais barata/rápida/fácil para os lugares que eu quero ir. Como eu também vou passar dez horas em um ônibus – que seja minimamente confortável e seguro – para chegar em outros.

dsc06876

Parece muito simples. O processo de libertação dessas ideias. Mas acho que depois de ter gente que tu considerou tanto por tanto tempo te dizer tantas coisas que machucam, esses machucados levam um tempo para cicatrizar. E depois leva um tempo maior ainda para a cicatriz ficar pequenininha, quase invisível. Escandinávia me proporcionou essa libertação. De me encontrar novamente com quem eu sou, quem eu sei que eu sou e quem eu amo ser. Sem influências, opiniões e pitacos de ninguém. Apenas eu.

Eu cheguei na Escandinávia do meu jeito chato de viajar. E a única coisa que eu conseguia pensar era que chato seria, ficar esperando a aprovação de uma pessoa que tanto não se importa com os sentimentos dos outros. Que atira palavras como balas sem se importar quem atinge.

dsc06865

Eu vou continuar conhecendo o mundo desse meio jeito sem graça. Chato. Tedioso. Brega. O mundo é maravilhoso demais para eu me importar com detalhes e para eu me importar ser humanos que não se importam com nada. E eu espero que os jeitos alternativos, legais, rebeldes e aventurosos aprendam que não existe um jeito certo de ir.

dsc06831

Uma jornada à Noruega 1/3

Eu ganhei “O Mundo de Sofia” quando tinha uns 10/11 anos e algo naquele livro me cativou de uma forma única. Eu li ele três vezes no período de um ano naquela época e desde então não tinha mais entrado em contato com a narrativa, tinha apenas noção que era um dos meus livros favoritos. Em fevereiro eu comecei uma releitura – que não chegou a ser finalizada – e consegui olhar para a Gabriele daquela época e entender o que naquele livro gigante e com letrinhas pequenas chamou tanto a atenção dela.

dsc06707

Ela não tinha muitos amigos, ela era extremamente tímida e compreendia o mundo de uma forma que a tornava “a” estranha da turma. O que “O Mundo de Sofia” faz, é convidar o leitor para uma jornada de conhecimento sobre a história da filosofia de uma maneira encantadora e ao mesmo tempo, convida o leitor a pensar sobre a sua compreensão de mundo e de ser humano. Eu tenho certeza que a pequena Gabriele gostou de ser incentivada a pensar daquela forma, sem julgamentos, sem certo e errado. Apenas: vamos pensar sobre como pensar.

Enfim, a minha história com o livro é longa, mas resumindo: ele é importante para mim. E desde essa época, eu acabei com a vontade de visitar a Noruega. O autor é norueguês e o livro é ambientado na Noruega. Ou seja, eu precisava visitar a Noruega. Sem nenhum motivo maior, sem saber realmente o que tem no país para visitar, eu só sentia que precisava ir.

dsc06743

Anos e anos se passaram e de repente eu estou estudando na Holanda – bem mais perto que o sul do Brasil! – e de repente me vejo com uma semana sem aulas. Não precisei pensar muito até decidir que: Noruega!!

Comecei a planejar então essa semana de “folga” e onde iria partir sozinha para o destino tão sonhado. Antes de chegar lá, no entanto, passaria por Copenhagen e Estocolmo. Duas cidades que eu também nunca tinha pesquisado muito, mas que já posso dizer que me surpreenderam de todas as formas possíveis.

dsc06772

A questão é que um sonho aparentemente inalcançável e bobinho de “ir para noruega” está para acontecer em algumas horas a partir do momento que eu digito essas palavras. E acontece que essa pequena viagem acabou virando muito mais do que visitar a Noruega. E a Dinamarca. E a Suécia. Acabou virando uma viagem onde eu pude me visitar. Me visitar de várias formas.

Em casa, eu passo relativamente bastante tempo sozinha. Eu faço terapia uma vez por semana. Eu penso e repenso em tudo que eu faço e deixo de fazer. Eu constantemente estou em contato comigo mesma. Isso é ótimo, dolorido e sofrido ao mesmo tempo.

Desde que cheguei na Holanda, a vida tem sido maravilhosa, mas corrida demais e vivida demais. As coisas tem acontecido, momentos lindos tem sido vividos e isso é ótimo, mas eu não tenho conseguido muito tempo parar ficar comigo mesma. Para parar e simplesmente assimilar toda essa imensidão de sentimentos e momentos que eu tenho adquirido aqui.

dsc06783

Essa viagem tem me proporcionado isso. Momentos de “nossa, estou em Copenhagen. Copenhagen. E é maravilhoso”.

De conseguir estar presente no momento. E sabe, que momento.

 

São Paulo (julho, 2016)

Aos pouquinhos a gente vai conhecendo os muitos lugares desse mundo. E registrando com umas fotos, torcendo muito para que nem todas saiam tremidas e estranhas, já que quem escreve essas palavras não tem muito talento para fotografia.

E é muito bom quando no meio dessas andanças podemos parar de admirar uns quadros de anos e anos atrás. E outros de anos recentes. E pensar no porquê aquelas pessoas que me encaram cheias de tinta parecem tão tristes. Ou se é uma projeção minha.

São Paulo foi uma viagem curta e uma viagem necessária para uma outra aventurinha que está para começar. E essa sim, julho, vai ser para tirar qualquer tristeza que esteja se escondendo nos cantinhos da alma.

Um corte de cabelo

Eu gostaria de dizer que fazia muito tempo que eu não abri esse arquivo. Que eu não sentia necessidade de vomitar palavras sobre nós. E machuca muito que eu ainda preciso fazer isso, porque te coloca em um pedestal de importância que tu não merece estar. Tu não merece passar tanto tempo nos meus pensamentos. Eu não deveria passar tanto tempo tentando te entender. Eu gostaria de dizer que eu queria já ter superado. Eu gostaria de dizer que eu não queria ter chorado tanto na sexta-feira passada com as minhas amigas por ti. E por ainda tu me machucar tanto. E sabe porque tu me machuca tanto? Não é porque eu sinto falta tua. É como a ideia de uma transferência que é sempre inadequada em relação ao tempo em que o sentimento é sentido. É um machucado que eu não me permiti sentir no momento. Porque eu não queria te machucar. Eu não disse que o que tu fez, deixou de fazer, me forçou a fazer estava machucando porque eu tive medo, insegurança. E machucou. E eu não me permiti sentir. E agora tudo está voltando. E eu me coloco vendo um filme ininterrupto onde eu revejo as cenas e tento gritar comigo mesma pedindo para que eu faça alguma coisa, diga alguma coisa, mas eu não faço nada. Eu te deixo fazer. Eu te deixo não fazer. Eu te deixo forçar. Eu deixo tu me machucar. E é uma dor forte. E deslocada. E eu não queria estar sentindo ela agora. Dói demais. Eu queria gritar contigo e tu não está mais aqui. E faz tempo.

E eu gostaria de dizer, que eu sinto raiva por tu ter curtido a minha foto no facebook. Sabe, eu sei que tu tem todo direito de fazer o que quiser fazer. Mas eu sinto raiva por não ter o mínimo de consideração. Por não pensar, nem por um segundo o que eu iria sentir. Como aquilo iria me atingir. Por simplesmente não pensar. Eu só queria pedir para parar. Parar de reconectar os fios comigo. Fios que eu levo tanto, mas tanto tempo para cortar. E um ato, que sem nem pensar, tu consegue me acabar. E eu gostaria de dizer e de admitir, algo que eu precisei admitir para mim mesma e que doeu. Sabe, doeu muito. Existem certas coisas que eu sei que existem, mas eu não gosto de admitir e essa foi uma delas. Sabe por que doeu tanto essa curtida? Essa reconexão? Porque eu ainda sinto uma necessidade de aprovação tua. E eu gostaria de dizer, que machuca. Sabe, machuca demais. Estar ligada assim. Precisar disso assim. Não conseguir me ver livre de ti.

Eu fui lá e cortei o cabelo em um ato de impulso. E eu senti que foi uma tentativa de fugir de todos os meus outros movimentos de tentar ser aprovada por ti. E machuca tanto. Tu me machucou tanto. Eu não sei se tu sabe. Eu acho que tu nunca vai saber. Mas tu machucou tanto. Tu me bloqueou tanto. Tu me impôs um dever-ser tão grande. Que agora eu preciso lutar pelo meu poder-ser autêntico de uma forma tão feroz e raivosa que machuca e dói.

Sei lá. Eu só queria dizer que tu tá vivo em mim. E tá me machucando e corroendo por dentro. E eu só espero que sobre pedaços meus no fim de tudo isso. E eu espero ver um fim. Porque eu não quero mais tu dentro e perto de mim.

Almoços

Eu fui almoçar com um menino hoje. E eu gostaria de dizer que eu não achei que iria conseguir fazer isso. Me colocar a disposição de alguém que pode me machucar. E foi um bom almoço. Mas eu também gostaria de dizer que não é como contigo, não é conversas infinitas e assuntos intermináveis. É estranho. Eu me olho e vejo uma pedra congelada. E é tão difícil. Relações humanas. Conversas. É tão cansativo. Desgastante. Ameaçador. Porque parte de mim quer se abrir e permitir que coisas aconteçam ou não. Parte de mim quer dar esse pulo no desconhecido. E outra parte de mim, sabe que a lei da gravidade faz com que tudo que pula caia no chão. E eu já aprendi, contigo, que cair no chão dói. E eu não sei se eu quero sentir essa dor toda de novo. O tempo de recuperação é muito grande. Eu quero conseguir falar. Entregar. Interagir. E agora sempre que eu penso em fazer isso, eu penso em cair e resolvo não pular.

Cantos e Fortalezas

Faz tempo que eu não me dirijo a esse documento. E sabe, a sensação é boa. De não sentir uma necessidade absurda de comentar sobre como eu estou me sentindo. Mas eu gostaria de dizer, que de tempos em tempos, a dor reaparece. E honestamente, quando ela volta ela consegue me derrubar.

Não permanentemente. Eu encontrei uma força em mim que eu desconhecia e eu sei que eu vou levantar todas as vezes que cair. Mas é cansativo também. Tantos tombos, tropeços e deslizes. Machuca. Eu sei que eu sou forte para seguir sozinha e eu sei que eu sou feliz com as minhas escolhas e meus objetivos. Mesmo que esses te afastaram de mim.

Hoje eu olho e não te reconheço mais. O que é bom. E devastador. Pelo menos eu entendo que eu não poderia estar com uma pessoa como tu. Por vários motivos. Eu não vejo mais o menino pelo qual eu me apaixonei perdidamente em ti. Eu só vejo uma pessoa que me deixa intrigada. Porque tu tem um jeito de ser que intriga. Não no bom sentido, eu diria. Eu só não te reconheço mais. Não sei se tu diria o mesmo de mim. Eu não grito a sete ventos para todos ouvirem o que eu estou pensando. Tu grita. E eu acabo escutando. E não reconhecendo a pessoa que eu me entreguei completamente. Aquele menino não existe mais.

O que tu diria de mim? Tu iria me reconhecer? Tu diria que eu ainda sou a mesma menina pelo qual tu te apaixonou? Eu não diria que sou a mesma pessoa, caso essa informação seja do teu interesse. Eu mudei tanto. E para tão melhor. Eu gostaria de poder compartilhar essa descoberta com o meu antigo melhor amigo. Eu gostaria de dizer que eu cresci e eu estou forte. Confiante. Eu confio em mim de uma forma que nunca achei que fosse possível. Eu aprendi a gostar de mim, depois de quase vinte anos em contato comigo mesma. Eu aprendi a gostar de mim mesma pelo que eu sou. Pelo que te afastou de mim. Eu amo essa parte de mim. E se por isso eu não posso mais te amar, então, me perdoa por escolher a mim. Eu escolhi a mim. E a todos os meus defeitos, qualidades e características que possam ter te afastado. Eu escolhi todas elas e compus uma versão que eu me orgulho de ser.

Eu precisei te perder para me encontrar. E dói tanto, mas eu entendo que era necessário. Eu me encontrei e percebi que isso é mais importante do que lutar uma luta já perdida. Do que tentar nadar em um mar de ressaca. Do que correr uma maratona sem fim. No fim, naquele fim que doeu de uma forma que eu não achei que fosse ser possível, eu me encontrei.

Eu já sabia um pouco sobre mim. Mas a tua saída permitiu que eu mergulhasse em contato comigo mesma de uma forma não conhecida antes. Eu abracei tudo que antes eu repudiava. Porque essas partes também são eu. E tu pode não gostar e tu pode ter corrido de tudo que eu represento. Tu pode correr para longe de mim, mas eu não. E eu já quis tanto. Já quis tanto entrar em descontato e apagar tudo que eu odiava. Eu já quis tanto me mudar para não afastar ninguém. Eu tentei. Eu tentei e eu percebi que isso poderia machucar mais do que a tua partida.

Então eu te deixei ir. E confia em mim quando eu digo que doeu. Mas eu te deixei ir para poder receber todas as partes de mim que eu estava expulsando. Por ti.

Eu gostaria de dizer, que eu sei que eu sou forte para seguir sozinha. Porque eu sigo sozinha, todos os dias. E eu sou forte o suficiente para não cair em um canto e lá permanecer. Porque eu levanto todos os dias e trabalho para ser a melhor versão de mim mesma possível. Eu mergulho dentro de mim e de todas as florestas escuras e raramente visitadas, porque eu estou construído uma versão cada vez melhor. Cada vez mais em contato. Cada vez mais cheia dos pedaços que você odiava. E eu repudiava. Eu queria ter me encaixado no seu quebra-cabeça. De verdade. Eu te amei muito. Mas eu preciso completar o meu quebra-cabeça e você estava me roubando peças. E eu preciso me amar mais. Essa energia toda precisa se direcionar a mim. Por mais narcísico que isso possa parecer. Eu preciso de um pouco desse egoísmo. Para olhar para mim.

Mas tem dias, que eu caio. Tem dias que toda a força some. E tem dias que permanecer no chão parece, realmente, uma ideia a considerar. Porque eu tenho toda essa força em mim, contudo, ela demanda muita energia. É um trabalho em construção.

E eu gostaria de dizer que hoje, eu estava planejando uma viagem. Sabe, daquelas que a gente sonhou juntos em fazer. E tudo desmoronou. Porque eu estou sozinha. E todo aquele sonho está no lixo. E minha força não foi o suficiente para lutar contra a dor que apareceu em mim. É engraçado que a dor sempre ganha quando ela quer. É como lutar sozinha contra várias memórias e pedaços que você deixou antes de sair. Alguns eu consigo rebater. Outros são golpes mortais.

Pensar na nossa viagem foi mortal. Porque era um sonho meu. Que tu pulou junto. E tínhamos um planejamento. E agora não é mais nada. Nós somos nada. Tu é nada.

E fica muito difícil me convencer, quando eu estou caída em um canto sem forças para levantar, que eu posso ser tudo.

Eu gostaria de dizer que esses golpes são pesados. E molham o meu rosto com lágrimas salgadas que raramente caem. Mas quando caem. Ah, é doído.