Introversão não é um defeito

Quando eu penso em como me descrever para pessoas (oi descrição do tinder) eu imediatamente penso que eu caio na categoria de pessoas “tímidas” e “introvertidas”. Contudo, isso é raramente uma das primeiras coisas que eu falo sobre mim para as pessoas porque depois de quase vinte e um anos vivendo na minha própria pele, eu aprendi que o mundo que eu vivo não acolhe tão bem pessoas que se dizem “introvertidas”.

Eu sempre pensei muito nisso. Na questão de porque eu sempre me senti tão errada por ser quem eu era e porque era tão difícil para as pessoas terem um pouco de compreensão e entenderem que nem todos são como eles eram. E como sempre doeu muito as pressões colocadas, durante todo o período escolar, que tem algo errado contigo. Que “como assim tu não quer ficar com todas as outras pessoas falando sobre algum assunto x que tu não tem o mínimo interesse?”. Eu sentia que intrinsecamente em todas essas perguntas e olhares tinha um “qual é o teu problema?”

E honestamente, depois de alguns anos, tu passa a realmente acreditar que existe um problema. O que acontece é que a gente cresce, circula por outros ambientes, ganha um pouco mais de autoconhecimento e acaba superando. Não 100%, mas o suficiente para não ser mais uma pedra no meio do caminho.

Eu já tinha visto esse livro da Susan Cain nas livrarias, mas o fato de normalmente eu encontrar ele na sessão de auto-ajuda me afastava dele. Eu não preciso de ajuda para arrumar um problema que não existe. Até que eu fui ler sobre o livro, o título sempre me foi intrigante e resolvi deixar o preconceito de lado e me informar melhor a respeito. “Quiet” não é um livro de auto-ajuda, para a minha surpresa. Susan Cain leva o leitor em uma jornada com informações, pesquisas, neuropsicologia, figuras históricas e pessoas comuns que acaba traçando uma visão sobre a introversão dentro de uma sociedade que tem a extroversão como o ideal.

2017-04-19 15.31.51

A autora provoca discussões que já são bem marcadas para qualquer estudante de psicologia que tenha tido alguma disciplina sobre personalidade, como natureza x criação, livre arbítrio e estabilidade dos traços ou contextualidade. Sempre ilustrando as partes mais teóricas com representações de figuras históricas conhecidas por serem extrovertidas ou introvertidas e com situações que a autora tenha experienciado em sua jornada de pesquisas para compor o livro, é uma leitura com bastante conteúdo, mas que não se torna extremamente cansativa.

O livro tem mais foco cognitivo e neuroanatômico do que eu imaginei a principio. Minha expectativa inicial era uma visão mais antropológica e cultural dessas formas de agir teriam na sociedade e como a sociedade que vivemos é construída de uma forma que predispõe os ideais que temos, mas isso é trabalhado com mais profundidade apenas na última parte do livro.

E essa última parte, acabou sendo a minha favorita (justamente por ir ao encontro da discussão que eu tanto buscar e por realizá-la de uma forma muito pertinente, clara e objetiva). Anteriormente, vemos diversas pesquisas com diferenças de processos cerebrais entre indivíduos extrovertidos e introvertidos, mostrando que realmente existe essas duas formas de funcionar no mundo. E como a autora sempre enfatiza, não existe a forma certa, são apenas maneiras diferentes de encarar situações e lidar com pessoas e problemas.

Existe também a discussão da maleabilidade e de como uma pessoa aprende ao longo da vida a moldar-se ao contexto que se encontra. Muita gente me olha hoje em dia e diz como eu mudei. Como eu era muito tímida e hoje eu não sou mais. Como hoje eu apresento trabalhos na faculdade bem. Como eu lido com situações que antes eu nunca pensaria em lidar. A grande questão, que é muito bem trabalhada no livro e me deixou pensando em muitas coisas que eu sentia, mas nunca tinha conseguido colocar nomes ainda, é que eu entendi que existem situações que vale a pena um esforço maior para que eu seja ouvida da maneira correta. Para que meu trabalho seja apresentado da maneira como ele merece ser apresentado. Para que eu interaja em uma situação social de uma forma que eu não vá me recriminar depois. Mas a verdade é que eu ainda sou uma pessoa introvertida. Nada disso é natural. Tudo isso demanda muita energia. Tudo isso tem uma quantidade de estímulo que eu, naturalmente, não me sinto confortável em receber. Mas são contextos que valem a pena. E eu acredito que crescer é aprender a lidar com contextos.

Introversão não é um defeito.

E é extremamente difícil convencer um cérebro que é constantemente bombardeado com um ambiente que diz o contrário. Acho que por isso que “Quiet” fez todo o sucesso que fez. E por isso ele é um livro importante. Porque é um ideal de ser humano que é preciso mudar um pouco.

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