Cenas Londrinas, Virginia Woolf

A combinação de Virginia Woolf escrevendo sobre um dos meus lugares favoritos no mundo não poderia ter um resultado ruim. “Cenas Londrinas” é o compilado de seis ensaios sobre aspectos diferentes de Londres que Virginia Woolf apresenta ao leitor de uma forma mais objetiva e direta que suas narrativas mais famosas, que utilizam o fluxo de consciência.

Eu amo Virginia Woolf utilizando fluxo de consciência. Eu amo a profundidade que ela dá aos personagens e ao ambiente nos livros de ficção e nos contos. Como é apresentado na introdução dos ensaios e perceptível durante a leitura dos mesmos, a Virginia Woolf que os escreve é objetiva, clara e concisa nas informações que trás ao leitor. É diferente, mas eu não gosto nem um pouco menos. Eu senti que estava sendo apresentada a diversos locais de Londres por uma moradora local, que ia me falando suas opiniões, contando algumas histórias e inserindo alguns comentários cheios de ironia que só a Virginia Woolf consegue.

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Virginia Woolf mostra aspectos opostos da mesma cidade ao caracterizar a chegada de produtos brutos em “As docas de Londres” e como esses produtos são transformados e comercializados para uma parte restrita da população em “Maré da Oxford Street”. Ambos ensaios são visivelmente interligados na questão de sentido, crítica e proposição de ideias.

“Lá nas docas vê-se as coisas em sua frieza, seu volume, sua enormidade. Aqui, em Oxford Street, elas se mostram refinadas e transformadas”

“Casa de grandes homens” é um ensaio onde Virginia Woolf analisa a moradia de escritores (Carlyle e Keats, principalmente) e comenta sobre como suas casas podem dizer mais sobre eles do que qualquer biografia já escrita sobre suas vidas. Ela então adentra cômodos e envolve o leitor da atmosfera que os escritores viveram e a partir de qual contexto suas obras puderam ser escritas e suas vidas, vividas. E unicamente, a partir desses contextos singulares, foi que as obras que eles produziram puderam ser produzidas da maneira que foram.

E foi esse ensaio que me deixou mais tempo pensando, porque eu também acredito que acabamos deixando uma marca nos lugares que vivemos. Seja a nossa forma de organizar ou desorganizar o ambiente. Os pertences que fazemos ocupar os espaços. As prioridades. As decorações. É muito único e as diferenças são muito perceptíveis. Muitas vezes eu percebo meu estado emocional pelo estado do meu quarto. Quanto mais bagunçado ele está e quanto mais dificuldade eu tenho em arrumar, é porque não é o quarto que está bagunçado, mas eu que estou bagunçada. O quarto é apenas um reflexo meu. E ele vai se moldando aos meus estados de ser ao longo dos meses e se adaptando a como eu estou me sentindo.

O que eu tenho nas paredes reflete o que eu quero ver todos os dias. O que eu tenho escondido dentro de uma caixa no fundo do armário reflete o que eu não quero ver, mas não tenho coragem de jogar no lixo. Os meus livros refletem pedaços meus. Os diferentes quartos que eu já tive na vida refletiram as diferentes etapas do meu desenvolvimento e todos eles, estão presentes no meu quarto atual, nem que seja uma boneca antiga no canto da prateleira que eu fico com dó de guardar em outro lugar. Essa nostalgia é parte minha. É ser quem eu sou. Se o meu quarto não fosse cheio que memórias, não seria meu.

Em “Abadias e Catedrais”, Woolf descreve o contraste entre a Catedral St. Paul e a Abadia de Westminster. Suas funções na cidade, seus propósitos internos, características de arquitetura e detalhes de qual tipo de pessoa se encontra enterrada em cada um dos locais.

Virginia Woolf segue comentando em “Esta é a Câmara dos Comuns” sobre aspectos mais voltado para política, como essa era tomada pelo papel masculino e sobre o local físico onde o papel da democracia era exercido.

“Vejamos se a democracia que enche os recintos não pode superar a aristocracia que esculpiu as estátuas. Mas existem ainda inúmeros policiais. Um gigante de azul permanece em pé ante cada porta para que não pressionemos com excessiva rapidez nossa democracia. “Entrada aos sábados somente das dez às 12 horas”. É o tipo de aviso que detém nosso progresso sonhador”

O último ensaio é intitulado “Retrato de uma Londrina” e é o único que conta com uma personagem, Mrs Crowe. Esse texto foi encontrado em 2005 e adicionado a coletânea já existente, que contava com os cinco ensaios iniciais. A edição brasileira foi lançada após essa data já com os seis ensaios juntos. Esse último texto difere dos outros por trazer uma personagem e não apenas a ambientação em Londres, mostrar a interação de Mrs Crowe com a cidade, seu dia-a-dia, hábitos e costumes.

Com esse texto, a visão de Londres que Virginia Woolf vinha trazendo ao leitor ganha um ar mais intimista, uma perspectiva mais afunilada. É um retrato de uma época, de uma pessoa, de um costume, de uma sociedade específica.

Eu amo Virginia Woolf. Não preciso tentar escrever bonito sobre como a narrativa dela é boa ou sobre como vale a pena ler as obras dela, acredito que ela faz isso muito bem por conta própria. Essa é uma coleção de ensaios ótima para ler em uma tarde com a companhia de um cházinho quente.

Título: Cenas Londrinas
Autora: Virginia Woolf
Editora: José Olympio
Páginas: 94
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Desencontrando, eu me encontrei

A gente vai se conhecendo a partir do ambiente que nos cerca e do feedback que vamos recebendo das pessoas a respeito de quem somos, quem não somos, quem aparentamos ser. As vezes as pessoas ao nosso redor acertam e fazem com que tenhamos uma noção saudável sobre quem somos. As vezes estamos em um momento da vida onde conseguimos separar aquilo que a pessoa traz e que é apenas dela, aquilo que é em relação a nós e aquilo que é em relação a junção de duas vidas que está acontecendo naquele momento. As vezes estamos confusos demais e despersonalizados demais para fazer essa diferenciação e aceitamos tudo de todos sem discernir muito bem se aquilo que x está me dizendo realmente é aplicável a mim. Ou eu apenas fui lida de uma forma errada porque x tem lentes de contatos suas que fazem que x veja o mundo de uma forma específica.

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Nunca vou esquecer do dia que uma professora disse em uma aula que ninguém iria encontrar sua outra metade da laranja. Porque ninguém era uma metade da laranja. Cada um era uma laranja completa, que iria encontrar outra laranja completa e então duas laranjas completas iriam resolver que aquela companhia era agradável o suficiente para seguir a vida juntas.

Mas quando estamos em uma relação e quem somos não está tão claro assim, as coisas começam a ficar mais complicadas. Mais misturadas. E quando a outra pessoa parte, você não sabe mais o que era seu, o que era dela, o que era da relação, o que você quer que fique, o que você quer que mude. O que está acontecendo.

Tem toda a história de expectativas, quando nos encontramos com uma pessoa. Encontramos no sentido que sentimos estar no mesmo modo de pensar do outro. Com expectativas parecidas. Com desejos parecidos. Com ideias sobre o que é tratar uma outra pessoa bem parecidas. E por aí vai. Muito além de um simples encontro físico. Esse outro tipo de encontro envolve muito. Eu não sei porque, quando eu devia ter uns oito anos, eu achei que teria sorte na vida na questão de encontrar pessoas. Talvez eu tenha assistido muitos filmes da Disney, mas confesso que tem sido uma aprendizagem interessante todos os mais diversos desencontros que eu encontrei no meu caminho.

Alguns mais traumáticos que outros, alguns mais estúpidos que outros, alguns mais tranquilos que outros, eu descobri que me desencontrando com tanta gente foi que eu comecei a me encontrar de verdade. Foi não permitindo que as pessoas tivessem uma visão distorcida minha que eu descobri qual era a visão que eu tinha de mim mesma. Foi estabelecendo limites que eu descobri até onde eu aceitava flexibilizar. Foi quando eu ouvia “tu é … “, que eu me contorcia por dentro e pensava que eu não sou nada que eu não queira ser. Que eu não sou uma visão planificada de uma pessoa que me conhece a poucas horas e acha que sabe todas as curvas, desvios e atalhos do meu ser. Nem eu sei.

O encontro de dois mundos é impactante e eu acho que deve ser visto como algo importante. As pessoas se influenciam, se afetam e é mágico como essa troca tem consequências. Pode doer e pode fazer crescer. Na maioria das vezes dói e com a dor a gente cresce. E dói porque somos descuidados como seres humanos com outros seres humanos. Faz parte. Eu queria chegar a uma conclusão de que existe uma receita especial que poupe todo esse desgaste emocional, mas a única conclusão que eu cheguei é que me desencontrando dos outros e me desencontrando de mim mesma é que eu encontrei a estrada certa para voltar a me encontrar. É simplesmente confuso assim.

 

Prazer, liberdade

É difícil falar de liberdade. Principalmente quando se estuda psicologia e cada teoria tem a sua própria visão sobre o que é liberdade e se somos ou não realmente livres. Eu pensei em psicologizar esse texto, mas, pensei que talvez um dos motivos para a sensação de sufocamento é ir buscar explicações teóricas para todos os sentimentos que se tem e não se permitir realmente sentir. Só sentir. Sem tentar entender os porquês e sem tentar travar, frear e amenizar. Sentir com a plena força do que vier. Não é tão fácil como parece. Mas enfim, sem me importar em soar inteligente ou em impressionar seres inexistentes: a sensação de liberdade existe. Existe porque eu senti ela. Existe porque eu sinto falta dela nos dias que eu acordo e me sinto sufocada.

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Eu fiz intercâmbio de agosto a janeiro do ano passado (2016-2017) e esse texto começou a ser escrito antes do meu retorno ao Brasil. A vida aconteceu e eu acabei esquecendo que ele existia até encontrar nos rascunhos e resolver que é um assunto que talvez seja interessante discutir. Ajustes foram feitos no que eu já tinha escrito, mas a ideia é realmente transitar entre sentimentos de lá e de cá.

Na época, antes de eu ir, Porto Alegre me colocava dentro de uma caixa. Em uma caixa pequena, apertada, sufocante. Onde eu ia, a sensação de não conseguir respirar me perseguia e estava chegando em um ponto onde não era mais saudável. Não é saudável sair de casa com uma sensação de aperto constante no peito. Não é saudável ficar verificando os confirmados em eventos do Facebook para decidir ou não se tu vai ir. Não é saudável tomar decisões se baseando em outros. Que estão tão longe e se importam tão pouco. O sufoco é olhar por todas as janelas e ver grades. É precisar se programar tão bem para fazer atividades tão simples por segurança. É estar sempre atenta. Sempre prestando atenção nos arredores. Sempre ligada na mochila, celular, livro, corpo…

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Então eu saí. A vida tem sido bem legal comigo em me proporcionar momentos de fuga em períodos específicos da vida. O momento de agosto do ano passado veio muito bem. Porque as vezes não basta estar longe em um sentido figurativo, as vezes é preciso entrar em um avião e partir para quilômetros e quilômetros de distância, esperando que assim, a mente compreenda uma questão ou duas. As vezes é preciso realmente ir para longe para uma desintoxicação de tudo que te diminui, te cansa e te exausta diariamente. E não deveria. Nem todos os dias deveriam ser batalhas travadas com tanto afinco.

Desde que o momento que eu cheguei na Holanda, eu não senti mais sufocamento nenhum. Eu conseguia respirar de uma maneira como não conseguia a tanto tempo. Eu conseguia ir a lugares e viver da forma mais genuína que eu já vivi. Eu era eu. Eu fui a versão mais eu que eu já fui em toda a minha vida. Não era eu em conflito comigo mesma. Não era eu em conflito com fantasmas. Não era eu em conflito com resquícios que eu esqueci em esquinas desertas e ruas movimentadas. Era apenas eu. Da forma que eu sentia que deveria ser. Da forma que eu me sentia livre. Eu me senti muito livre.

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Os momentos que mais me impressionavam e eu chegava a sentir meu corpo todo arrepiar com a sensação era quando eu voltava de madrugada para casa de bicicleta, as ruas vazias, escuras, o frio confortável, o silêncio que no início me era ensurdecedor e eu precisava ouvir música e depois eu aprendi a apreciar o silêncio por ser quem ele era no seu ser mais próprio e mais quieto e mais assustador. Nessas horas, eu acelerava bastante e em inclinações de descida da rua, eu soltava a força e deixava a bicicleta me levar. Eu deixava o vento tocar no meu rosto e empurrar meus cabelos para trás. Eu sempre sorria. Ás vezes eu chorava.

O meu maior medo de voltar era perder essa sensação. Era voltar a sentir um sufoco sem fim e sentir uma vida emprisionada. Mas acho que quando se aprende uma sensação nova, nosso corpo passa a aprender a buscá-la. E a única coisa que precisamos fazer é nos ouvir atentamente para descobrir onde encontrar pedaços de liberdade escondidos em lugares enclausurados. Porto Alegre não é uma cidade que faz com que eu me sinta livre todas as vezes que eu piso na rua. Nunca foi e infelizmente eu acho difícil que venha a ser. Mas eu não me sinto mais (tão) sufocada. Eu aprendi que a liberdade também pode ser encontrada em pequenos momentos, em pessoas e em lugares específicos. Não é mais uma constante como foi naqueles seis meses, mas não somos mais estranhas uma para outra. Gabriele conhece liberdade e liberdade conhece Gabriele. E de tempos em tempos nos reencontramos por aí, como velhas amigas que tem muito o que conversar.

 

 

 

 

Melodramática

Escute no Spotify

Sempre que me perguntam que estilo de música eu gosto, tenho um pouco de dificuldade de responder. Os ritmos podem variar bastante, dependem bastante do meu humor da época, mas se tem alguma constante nessa história toda que eu dou importância é a letra da música. Parecido com o que eu falei nesse texto aqui, eu gosto de deixar a música conversar comigo. As vezes é uma conversa interessante, mas que eu não tenho vontade de repetir e as vezes é algo maravilhoso que eu preciso revisitar uma quantidade absurda de vezes porque existe uma intersecção muito grande entre eu e a música. A música é um pouco de mim e eu sou um pouco da música. Existe algo que nos conecta que é mais do que um ritmo bom. Algum artista com uma voz boa. É uma poesia. É algo que diz “ei, eu sei o que tu sentiu, está sentindo ou vai sentir”. E é um conforto absurdo.

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Não é algo que acontece com muita frequência. Contudo, de tempos em tempos, aparece um CD novo que me deixa maravilhada. Aparece uma música que me toca fundo. Que mexe comigo como se quem escreveu conhecesse meus medos e sentimentos mais profundos, aqueles que eu tanto sofro para colocar no papel, para transformar em palavras. Ver o que eu sinto verbalizado e musicalizado é mágico. É terapêutico.

Eu nunca falei sobre música porque eu não me considero uma grande entendedora de música. Mas eu gosto de tentar entender sentimentos. “Melodrama”, o novo CD da Lorde entendeu sentimentos meus desses últimos dois anos que eu nem sabia que precisavam ser entendidos.

‘Cause honey I’ll come get my things, but I can’t let go
I’m waiting for it, that green light, I want it
Oh, I wish I could get my things and just let go
 I’m waiting for it, that green light, I want it
-Green Light

Lorde tem a minha idade, então estamos transitando simultaneamente pelos vinte anos e é uma grande aventura. Transitamos simultaneamente também por um primeiro término. Por uma primeira jornada de autoconhecimento, liberdade e início da vida adulta. Sobre ser jovem e estar se descobrindo e descobrindo como atravessar os buracos que aparecem no caminho a todo tempo.

Meu desejo era escrever sobre as minhas músicas favoritas, até perceber que eu iria escrever sobre cada uma do CD. Então vou tentar abordar de uma forma geral e especifica simultaneamente e esperar que dê certo.

I’ll give you my best side, tell you all my best lines
Seeing me rolling, showing someone else love
Dancing with our shoes off
Know I think you’re awesome, right?
-Homemade Dynamite

As músicas tem um ritmo pop que dão vontade de desligar as luzes do quarto e dançar sozinha como se estivesse em uma festa lotada. E ao mesmo tempo que elas em sua maioria tem um ritmo mais agitado e “para cima”, as letras não pecam na reflexividade sobre esse período da vida. Existe a questão de tentar seguir em frente e ter dificuldades, de esperar um sinal (Green Light) para deixar tudo para trás e seguir outros caminhos. Lorde aborda a questão de festas, experiências novas, ficadas, a sensação que se tem quando se ‘apaixona’ por uma pessoa muito rápido em uma festa e todos aqueles sentimentos acelerados aparecem (Sober).

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Temos confusões sobre ainda gostar de alguém ou não (Hard Feelings/Loveless) e sobre uma geração que não ama mais. Que se machuca. Que brinca uns com os outros. E é uma música que toca muito porque acaba sendo muito verdadeira. “Writer In The Dark” fala sobre manter a memória de alguém viva após um término através da escrita e como é difícil seguir em frente sem essa pessoa. Temos músicas sobre toda uma gama de sentimentos e sensações que vagam pela mente de uma pessoa em algum momento e é extremamente relacionável. Talvez para alguns mais que para outros, mas acredito que quando a música fala sobre sentimentos reais e crus de uma forma real e crua, é difícil não ouvir e se sentir um pouco vulnerável ao que está sendo dito. Porque todos já estivemos nessas situações e ver como Lorde musicalizou e poetizou tudo isso é sensacional.

Cause I remember the rush, when forever was us
Before all of the winds of regret and mistrust
Now we sit in your car and our love is a ghost
Well I guess I should go
Yeah I guess I should go
Hard Feelings/Loveless

Então temos “Liability”, que merecia um post sobre para ela. Eu poderia apenas escrever “Liability foi escrita sobre mim, obrigada” e terminar esse post. A música foi lançada antes do CD completo então eu já estava em contato com ela fazia algumas semanas. Não é uma música que eu considero fácil de ouvir, porque no meu caso machuca muito o quanto ela é verdadeira e dolorida. Mas ao mesmo tempo, ela é um abraço por entender muito sentimentos tão profundos meus e tão vulneráveis. É bom naqueles momentos de crise conseguir ouvir algo que reflete tão bem e é tão sonoricamente agradável de se ouvir.

They say, “You’re a little much for me, you’re a liability
You’re a little much for me”
So they pull back, make other plans
I understand, I’m a liability
Get you wild, make you leave
I’m a little much for e-a-na-na-na, everyone
-Liability

Eu escrevo para me entender. Desde que eu me conheço por gente. Eu tenho poesias antigas que hoje considero horríveis, mas que contam pedaços da minha história e eu sei que me confortaram em momentos de necessidade. Talvez seja por isso que eu preciso tanto da letra da música. E talvez eu seja por isso que eu fique tão feliz quando ganho um combo de letras maravilhosas com uma sonoridade que faz todo o sentido com a proposta e com as emoções que as letras passam. Melodrama faz exatamente isso. As músicas fazem sentido em sua combinação letra e melodia e é por isso que eu gostei tanto. Reflete o que é ter vinte e poucos anos nesse mundo confuso de relacionamentos.

Não posso dançar as minhas poesias por aí, mas posso dançar as novas músicas da Lorde e isso com certeza é um processo curativo muito mais eficiente.

O fundo do poço

Elena Ferrante é uma autora que todos estão falando sobre já faz bastante tempo. E falando bem. Pessoas nas quais opinião eu confio bastante estavam recomendando os livros dela e eu demorei para me animar e ler. Um dos grandes motivos foi que o trabalho mais famoso dela é uma série de livros e eu acredito ter saturado minha paciência com séries na adolescência. Até que eu vi um livro solo dela chamado “Dias de Abandono” e resolvo dar uma chance. Livros que parecem ser do estilo “soco no estômago” acabam entrando para a minha lista de desejados. E esse parecia. Trabalhar com abandono nunca é uma temática felizinha.

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Depois de quinze anos de casamento, Olga é abandonada por Mario. Presa ao cotidiano estilhaçado com dois filhos, um cachorro e nenhum emprego, ela se recusa a assumir o papel de “poverella” (“a pobre mulher abandonada”). Essa opção a projeta num turbilhão de obsessões, angústia e ímpetos violentos, capazes de afastar Olga do fato de que as derrotas precisam ser assumidas para que a vida possa enfim seguir adiante (GoodReads)

Esse livro podia tão facilmente cair no clichê de “mulher é deixada pelo marido e se desestrutura”. Esse clichê é até utilizado durante o livro, quando a personagem ao perceber estar se sentindo desestruturada, triste e abandonada, se recusa a deixar que esses sentimentos controlem a sua vida e faz um esforço imenso para ser forte e tomar controle de si mesma. Se recusa a se colocar na posição de poverella e relembra frequentemente uma história que lia na adolescência sobre uma mulher que estava justamente nessa situação. Olga lembra pensar que era um absurdo sofrer daquela maneira, perder o controle de si por um homem. E lá está ela, lutando com todo o resto de energia que tem para não cair nessa posição.

“I was not the women who breaks into pieces under the blows of abandoment and absence, who goes mad, who dies. Only a few fragments had splintered off, for the rest I was well. I was whole, whole I would remain. To those who hurt me, I react giving back in kind”

Me identifiquei? Me identifiquei. Principalmente com a questão de que é muito fácil julgar uma situação até se ver tentando lidar com ela e perceber que é muito mais subjetivo e delicado do que imaginamos primeiramente. Olga entra em um estado de obsessão de tentar entender o que aconteceu para que o marido a deixasse, ela entra em um estado de solidão, de precisar lidar com uma rotina que não permite que ela tire um tempo para se recuperar. As coisas continuam acontecendo enquanto ela esta completamente quebrada, tentando se restaurar. Seus filhos continuam pedindo atenção e continuam precisando que a rotina da casa siga em frente. Ela precisa dar conta de um trabalho que era feito a quatro mãos, com apenas duas. Duas mãos que também estão com várias tarefas internas, que ninguém vê, que ninguém reconhece, mas estão lá.

Ferrante insere a discussão do papel da mulher no relacionamento e como pode acabar virando uma relação complicada muito rápido. O ex-marido de Olga parte, deixando ela lidando com a casa, sem um emprego (já que ele que havia dito que ela não precisaria trabalhar, que ela podia se dedicar a escrita e ele manteria a economia da casa), com os filhos e com uma rotina muito pesada para uma pessoa com um emocional em crise como o dela naquele momento. Olhando para o livro e a forma como Olga age, pensa e lida com as situações, é possível ver que ela entra em um estado de luto e eu levantei a hipótese durante a minha leitura que ela tem um episódio depressivo grave com sintomas psicóticos, devido a umas passagens que ela aparece com algumas alucinações.

“Nothing was solid, everything was slipping away”

Olga sente um abandono completo e isso é refletido em uma narrativa que muitas vezes parece não andar. Parece presa no mesmo espaço e tempo. Eu senti diversas vezes como se tivesse dando voltas e voltas e não conseguia sair de um labirinto horrível e angustiante. A narrativa em primeira pessoa nos dá acesso aos pensamentos de Olga, pensamentos que mostram claramente a confusão mental que ela se encontra. Que mostram o esforço que ela está fazendo para não cair no fundo do poço, para não sair no desamparo emocional, para não ser “a mulher que sofre por homem”.

Não é uma narrativa antiga, o livro foi publicado pela primeira vez em 2002, mas confesso que ler um livro sofre fragilidade emocional, sobre desamparo, sobre sofrimento, sobre dor em pleno 2017 for refrescante e confortante. Em um tempo onde tanto se fala (e deve-se falar) sobre a força da mulher, é confortante um livro que diga “ei, mas as vezes a gente fica mal. As vezes a gente perde o chão. As vezes a gente beira a loucura. As vezes a gente entra em uma instabilidade emocional. Ei, as vezes isso acontece depois de términos. As vezes a gente se sente abandonada. E sabe, isso não te faz menos mulher. Isso não te faz fraca. O fundo do poço não te faz fraca. Tá tudo bem”.

“The tears rose and I didn’t cry. To appear strong, to be strong. I had to make a good showing of myself. Only if I imposed that obligation would I save myself”

Olga reflete todas as dimensões de uma pessoa. Ela reflete uma pessoa que é boa, mas que tem pensamentos raivosos, maldosos, considerados errados. Ela erra. Ela exagera. Ela age sem pensar. Ela é uma pessoa com qualidades e defeitos e os melhores personagens são assim. Tão humanos que chega uma hora que a gente não sabe se gosta ou não deles. E a questão não é gostar ou não deles. É perceber que não é nosso papel colocar esse julgamento ali. É apenas ler a história deles, trabalhar a empatia, a compreensão e ouvir com o coração aberto.

“But as for me, if all the features that I had assimilated from him had once seemed to me lovable, how, now that they no longer seemed lovable, was I going to tear them out of me? How could I scrape them definitively off of my body, my mind, without finding that I had in the process scraped away myself?”

“Dias de Abandono” fala sobre um processo. Sobre aceitação de fragilidade. Eu já escrevi tanto sobre como as vezes a gente só consegue levantar se nos permitirmos cair de verdade e eu acho que é por isso que esse livro foi tão forte, eu só queria abraçar a personagem e dizer que ela podia cair.

 

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Quando um livro te entende

Meu amor por Clarice Lispector não é novidade. Eu coloco ela no mesmo nível de Sylvia Plath e Virginia Woolf, completando o meu trio de autoras incríveis que eu sou levemente obcecada. Aos poucos eu vou lendo os livros que faltam da obra delas e mesmo com as expectativas sempre altas, eu continuo me surpreendendo.

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“Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” foi publicado pela primeira vez em 1969 e eu me senti tão compreendida por esse livro que passei boa parte da leitura abraçada nele. Porque quando o livro me compreende assim, eu preciso abraçá-lo e agradecer por permitir que eu não me sinta tão sozinha no mundo com os meus sentimentos que as vezes são tão confusos e bagunçados.

Sobre o que é o livro?

Como em todas as obras de Clarice Lispector, ‘Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres’ é um ponto de vista feminino a respeito da vida. Lóri, na verdade, é a personagem central, enquanto Ulisses ocupa um papel secundário, mero referencial para os pensamentos e atitudes de Lóri. O livro conta, acima de tudo, a viagem empreendida por Lóri em busca de si própria e do prazer sem culpa. Uma viagem na qual Ulisses funciona como um farol, indicando onde estão os perigos e o caminho correto para a aprendizagem do amor e da vida (GoodReads)

Lóri é uma personagem que está em busca de si. Em busca de uma vida sem medo, em busca de um prazer sem culpa e em busca de se atirar para uma felicidade sem angústia de sofrer. É uma personagem que foge da dor e justamente por fugir da dor, foge da vida.

“O que acontecia na verdade com Lóri é que, por alguma decisão tão profunda que os motivos lhe escapavam — ela havia por medo cortado a dor. Só com Ulisses viera aprender que não se podia cortar a dor — senão se sofreria o tempo todo.”

Não é um livro de romance, onde a mocinha quer o mocinho. É um livro de uma jornada interna de uma mulher. E é maravilhoso.

Agora, como esse livro pode entender uma pessoa de vinte anos em pleno 2017? Porque eu sou uma mulher e eu estou em uma jornada. E sentimentos são sentimentos, independentemente de quando são sentidos. Angústias existem. Medos existem. Desejos existem. Amores existem. A busca por um ser mais próprio e mais independente existe. A busca por uma essência mais própria existe. E eu senti que esse livro compreendeu toda a montanha-russa que é passar por essa jornada. E entendeu que o ser-no-mundo é um processo que não termina. É um processo de crescimento e mudança constante. É um processo que assusta muito. E é um processo muito incrível de se passar.

“Era cruel o que fazia consigo própria: aproveitar que estava em carne viva para se conhecer melhor, já que a ferida estava aberta”

A jornada de autoconhecimento é dolorida. É comum querer fugir da dor. Ninguém quer sentir dor, contudo, o processo de vir-a-ser só vai acontecer a partir do contato com a dor e com a essência do ser. Meus textos que deram origem a essa nova fase do blog (eles tem a marcação de gostaria de dizer nas categorias) marcam muito esse momento na minha vida. Um momento que eu, que não sou Clarice Lispector, falo que encarei o fundo do poço e resolvi lidar com a situação e entrei em um processo de autoconhecimento e transformação. “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” fala dessa jornada com uma prosa poética, uma narrativa bem construída e sensacional.

“Lóri se cansava muito porque ela não parava de ser”

Nessa jornada em busca de si, muitas vezes precisamos arriscar. Arriscar cair no fundo do poço de novo, depois de levar tanto tempo para sair de lá e finalmente ter nos reencontrado com a felicidade, com a gente mesmo, com a nossa essência de ser. Quando estamos em relações com outros indivíduos, nós não temos garantia de nada. De finais felizes, de que as pessoas não vão ser idiotas, de que a gente não vai estragar tudo. Não existe garantia nenhuma e a gente tem duas opções: não arriscar e continuar em uma vida ok ou arriscar e ter a chance de ter momentos mais extraordinários, onde sentimos que realmente estamos vivendo. Talvez a gente caia no fundo do poço de novo, mas a jornada de encontro a si funciona para entendermos e confiarmos que somos mais do que capaz de sair de lá, sempre. E chega um momento e que cair e levantar vira parte da vida e não vai mais assustar tanto (ainda não cheguei lá, mas o importante é a caminhada).

“Para aprender a alegria você precisa de todas as garantias?”

Eu andei vivendo essa crise nos últimos meses, então o livro tocou na ferida, abraçou a ferida e ouso dizer e curou um pouco da ferida. Eu podia colocar aqui todas as várias frases que eu assinalei durante a minha leitura, aquelas que eu assinalei com !!!! nas margens porque eu fiquei sem palavras para retratar o meu amor por simples palavras, mas vou resumir tudo com a minha modesta recomendação de leitura. E de pensamento. Pensar sobre essa jornada é algo verdadeiramente maravilhoso. Principalmente quando esse pensamento é orquestrado pela Clarice Lispector. Que mulher maravilhosa.

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Introversão não é um defeito

Quando eu penso em como me descrever para pessoas (oi descrição do tinder) eu imediatamente penso que eu caio na categoria de pessoas “tímidas” e “introvertidas”. Contudo, isso é raramente uma das primeiras coisas que eu falo sobre mim para as pessoas porque depois de quase vinte e um anos vivendo na minha própria pele, eu aprendi que o mundo que eu vivo não acolhe tão bem pessoas que se dizem “introvertidas”.

Eu sempre pensei muito nisso. Na questão de porque eu sempre me senti tão errada por ser quem eu era e porque era tão difícil para as pessoas terem um pouco de compreensão e entenderem que nem todos são como eles eram. E como sempre doeu muito as pressões colocadas, durante todo o período escolar, que tem algo errado contigo. Que “como assim tu não quer ficar com todas as outras pessoas falando sobre algum assunto x que tu não tem o mínimo interesse?”. Eu sentia que intrinsecamente em todas essas perguntas e olhares tinha um “qual é o teu problema?”

E honestamente, depois de alguns anos, tu passa a realmente acreditar que existe um problema. O que acontece é que a gente cresce, circula por outros ambientes, ganha um pouco mais de autoconhecimento e acaba superando. Não 100%, mas o suficiente para não ser mais uma pedra no meio do caminho.

Eu já tinha visto esse livro da Susan Cain nas livrarias, mas o fato de normalmente eu encontrar ele na sessão de auto-ajuda me afastava dele. Eu não preciso de ajuda para arrumar um problema que não existe. Até que eu fui ler sobre o livro, o título sempre me foi intrigante e resolvi deixar o preconceito de lado e me informar melhor a respeito. “Quiet” não é um livro de auto-ajuda, para a minha surpresa. Susan Cain leva o leitor em uma jornada com informações, pesquisas, neuropsicologia, figuras históricas e pessoas comuns que acaba traçando uma visão sobre a introversão dentro de uma sociedade que tem a extroversão como o ideal.

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A autora provoca discussões que já são bem marcadas para qualquer estudante de psicologia que tenha tido alguma disciplina sobre personalidade, como natureza x criação, livre arbítrio e estabilidade dos traços ou contextualidade. Sempre ilustrando as partes mais teóricas com representações de figuras históricas conhecidas por serem extrovertidas ou introvertidas e com situações que a autora tenha experienciado em sua jornada de pesquisas para compor o livro, é uma leitura com bastante conteúdo, mas que não se torna extremamente cansativa.

O livro tem mais foco cognitivo e neuroanatômico do que eu imaginei a principio. Minha expectativa inicial era uma visão mais antropológica e cultural dessas formas de agir teriam na sociedade e como a sociedade que vivemos é construída de uma forma que predispõe os ideais que temos, mas isso é trabalhado com mais profundidade apenas na última parte do livro.

E essa última parte, acabou sendo a minha favorita (justamente por ir ao encontro da discussão que eu tanto buscar e por realizá-la de uma forma muito pertinente, clara e objetiva). Anteriormente, vemos diversas pesquisas com diferenças de processos cerebrais entre indivíduos extrovertidos e introvertidos, mostrando que realmente existe essas duas formas de funcionar no mundo. E como a autora sempre enfatiza, não existe a forma certa, são apenas maneiras diferentes de encarar situações e lidar com pessoas e problemas.

Existe também a discussão da maleabilidade e de como uma pessoa aprende ao longo da vida a moldar-se ao contexto que se encontra. Muita gente me olha hoje em dia e diz como eu mudei. Como eu era muito tímida e hoje eu não sou mais. Como hoje eu apresento trabalhos na faculdade bem. Como eu lido com situações que antes eu nunca pensaria em lidar. A grande questão, que é muito bem trabalhada no livro e me deixou pensando em muitas coisas que eu sentia, mas nunca tinha conseguido colocar nomes ainda, é que eu entendi que existem situações que vale a pena um esforço maior para que eu seja ouvida da maneira correta. Para que meu trabalho seja apresentado da maneira como ele merece ser apresentado. Para que eu interaja em uma situação social de uma forma que eu não vá me recriminar depois. Mas a verdade é que eu ainda sou uma pessoa introvertida. Nada disso é natural. Tudo isso demanda muita energia. Tudo isso tem uma quantidade de estímulo que eu, naturalmente, não me sinto confortável em receber. Mas são contextos que valem a pena. E eu acredito que crescer é aprender a lidar com contextos.

Introversão não é um defeito.

E é extremamente difícil convencer um cérebro que é constantemente bombardeado com um ambiente que diz o contrário. Acho que por isso que “Quiet” fez todo o sucesso que fez. E por isso ele é um livro importante. Porque é um ideal de ser humano que é preciso mudar um pouco.

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