Cenas Londrinas, Virginia Woolf

A combinação de Virginia Woolf escrevendo sobre um dos meus lugares favoritos no mundo não poderia ter um resultado ruim. “Cenas Londrinas” é o compilado de seis ensaios sobre aspectos diferentes de Londres que Virginia Woolf apresenta ao leitor de uma forma mais objetiva e direta que suas narrativas mais famosas, que utilizam o fluxo de consciência.

Eu amo Virginia Woolf utilizando fluxo de consciência. Eu amo a profundidade que ela dá aos personagens e ao ambiente nos livros de ficção e nos contos. Como é apresentado na introdução dos ensaios e perceptível durante a leitura dos mesmos, a Virginia Woolf que os escreve é objetiva, clara e concisa nas informações que trás ao leitor. É diferente, mas eu não gosto nem um pouco menos. Eu senti que estava sendo apresentada a diversos locais de Londres por uma moradora local, que ia me falando suas opiniões, contando algumas histórias e inserindo alguns comentários cheios de ironia que só a Virginia Woolf consegue.

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Virginia Woolf mostra aspectos opostos da mesma cidade ao caracterizar a chegada de produtos brutos em “As docas de Londres” e como esses produtos são transformados e comercializados para uma parte restrita da população em “Maré da Oxford Street”. Ambos ensaios são visivelmente interligados na questão de sentido, crítica e proposição de ideias.

“Lá nas docas vê-se as coisas em sua frieza, seu volume, sua enormidade. Aqui, em Oxford Street, elas se mostram refinadas e transformadas”

“Casa de grandes homens” é um ensaio onde Virginia Woolf analisa a moradia de escritores (Carlyle e Keats, principalmente) e comenta sobre como suas casas podem dizer mais sobre eles do que qualquer biografia já escrita sobre suas vidas. Ela então adentra cômodos e envolve o leitor da atmosfera que os escritores viveram e a partir de qual contexto suas obras puderam ser escritas e suas vidas, vividas. E unicamente, a partir desses contextos singulares, foi que as obras que eles produziram puderam ser produzidas da maneira que foram.

E foi esse ensaio que me deixou mais tempo pensando, porque eu também acredito que acabamos deixando uma marca nos lugares que vivemos. Seja a nossa forma de organizar ou desorganizar o ambiente. Os pertences que fazemos ocupar os espaços. As prioridades. As decorações. É muito único e as diferenças são muito perceptíveis. Muitas vezes eu percebo meu estado emocional pelo estado do meu quarto. Quanto mais bagunçado ele está e quanto mais dificuldade eu tenho em arrumar, é porque não é o quarto que está bagunçado, mas eu que estou bagunçada. O quarto é apenas um reflexo meu. E ele vai se moldando aos meus estados de ser ao longo dos meses e se adaptando a como eu estou me sentindo.

O que eu tenho nas paredes reflete o que eu quero ver todos os dias. O que eu tenho escondido dentro de uma caixa no fundo do armário reflete o que eu não quero ver, mas não tenho coragem de jogar no lixo. Os meus livros refletem pedaços meus. Os diferentes quartos que eu já tive na vida refletiram as diferentes etapas do meu desenvolvimento e todos eles, estão presentes no meu quarto atual, nem que seja uma boneca antiga no canto da prateleira que eu fico com dó de guardar em outro lugar. Essa nostalgia é parte minha. É ser quem eu sou. Se o meu quarto não fosse cheio que memórias, não seria meu.

Em “Abadias e Catedrais”, Woolf descreve o contraste entre a Catedral St. Paul e a Abadia de Westminster. Suas funções na cidade, seus propósitos internos, características de arquitetura e detalhes de qual tipo de pessoa se encontra enterrada em cada um dos locais.

Virginia Woolf segue comentando em “Esta é a Câmara dos Comuns” sobre aspectos mais voltado para política, como essa era tomada pelo papel masculino e sobre o local físico onde o papel da democracia era exercido.

“Vejamos se a democracia que enche os recintos não pode superar a aristocracia que esculpiu as estátuas. Mas existem ainda inúmeros policiais. Um gigante de azul permanece em pé ante cada porta para que não pressionemos com excessiva rapidez nossa democracia. “Entrada aos sábados somente das dez às 12 horas”. É o tipo de aviso que detém nosso progresso sonhador”

O último ensaio é intitulado “Retrato de uma Londrina” e é o único que conta com uma personagem, Mrs Crowe. Esse texto foi encontrado em 2005 e adicionado a coletânea já existente, que contava com os cinco ensaios iniciais. A edição brasileira foi lançada após essa data já com os seis ensaios juntos. Esse último texto difere dos outros por trazer uma personagem e não apenas a ambientação em Londres, mostrar a interação de Mrs Crowe com a cidade, seu dia-a-dia, hábitos e costumes.

Com esse texto, a visão de Londres que Virginia Woolf vinha trazendo ao leitor ganha um ar mais intimista, uma perspectiva mais afunilada. É um retrato de uma época, de uma pessoa, de um costume, de uma sociedade específica.

Eu amo Virginia Woolf. Não preciso tentar escrever bonito sobre como a narrativa dela é boa ou sobre como vale a pena ler as obras dela, acredito que ela faz isso muito bem por conta própria. Essa é uma coleção de ensaios ótima para ler em uma tarde com a companhia de um cházinho quente.

Título: Cenas Londrinas
Autora: Virginia Woolf
Editora: José Olympio
Páginas: 94
Compre o livro: Amazon

 

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