O fundo do poço

Elena Ferrante é uma autora que todos estão falando sobre já faz bastante tempo. E falando bem. Pessoas nas quais opinião eu confio bastante estavam recomendando os livros dela e eu demorei para me animar e ler. Um dos grandes motivos foi que o trabalho mais famoso dela é uma série de livros e eu acredito ter saturado minha paciência com séries na adolescência. Até que eu vi um livro solo dela chamado “Dias de Abandono” e resolvo dar uma chance. Livros que parecem ser do estilo “soco no estômago” acabam entrando para a minha lista de desejados. E esse parecia. Trabalhar com abandono nunca é uma temática felizinha.

2017-06-01 18.45.27

Depois de quinze anos de casamento, Olga é abandonada por Mario. Presa ao cotidiano estilhaçado com dois filhos, um cachorro e nenhum emprego, ela se recusa a assumir o papel de “poverella” (“a pobre mulher abandonada”). Essa opção a projeta num turbilhão de obsessões, angústia e ímpetos violentos, capazes de afastar Olga do fato de que as derrotas precisam ser assumidas para que a vida possa enfim seguir adiante (GoodReads)

Esse livro podia tão facilmente cair no clichê de “mulher é deixada pelo marido e se desestrutura”. Esse clichê é até utilizado durante o livro, quando a personagem ao perceber estar se sentindo desestruturada, triste e abandonada, se recusa a deixar que esses sentimentos controlem a sua vida e faz um esforço imenso para ser forte e tomar controle de si mesma. Se recusa a se colocar na posição de poverella e relembra frequentemente uma história que lia na adolescência sobre uma mulher que estava justamente nessa situação. Olga lembra pensar que era um absurdo sofrer daquela maneira, perder o controle de si por um homem. E lá está ela, lutando com todo o resto de energia que tem para não cair nessa posição.

“I was not the women who breaks into pieces under the blows of abandoment and absence, who goes mad, who dies. Only a few fragments had splintered off, for the rest I was well. I was whole, whole I would remain. To those who hurt me, I react giving back in kind”

Me identifiquei? Me identifiquei. Principalmente com a questão de que é muito fácil julgar uma situação até se ver tentando lidar com ela e perceber que é muito mais subjetivo e delicado do que imaginamos primeiramente. Olga entra em um estado de obsessão de tentar entender o que aconteceu para que o marido a deixasse, ela entra em um estado de solidão, de precisar lidar com uma rotina que não permite que ela tire um tempo para se recuperar. As coisas continuam acontecendo enquanto ela esta completamente quebrada, tentando se restaurar. Seus filhos continuam pedindo atenção e continuam precisando que a rotina da casa siga em frente. Ela precisa dar conta de um trabalho que era feito a quatro mãos, com apenas duas. Duas mãos que também estão com várias tarefas internas, que ninguém vê, que ninguém reconhece, mas estão lá.

Ferrante insere a discussão do papel da mulher no relacionamento e como pode acabar virando uma relação complicada muito rápido. O ex-marido de Olga parte, deixando ela lidando com a casa, sem um emprego (já que ele que havia dito que ela não precisaria trabalhar, que ela podia se dedicar a escrita e ele manteria a economia da casa), com os filhos e com uma rotina muito pesada para uma pessoa com um emocional em crise como o dela naquele momento. Olhando para o livro e a forma como Olga age, pensa e lida com as situações, é possível ver que ela entra em um estado de luto e eu levantei a hipótese durante a minha leitura que ela tem um episódio depressivo grave com sintomas psicóticos, devido a umas passagens que ela aparece com algumas alucinações.

“Nothing was solid, everything was slipping away”

Olga sente um abandono completo e isso é refletido em uma narrativa que muitas vezes parece não andar. Parece presa no mesmo espaço e tempo. Eu senti diversas vezes como se tivesse dando voltas e voltas e não conseguia sair de um labirinto horrível e angustiante. A narrativa em primeira pessoa nos dá acesso aos pensamentos de Olga, pensamentos que mostram claramente a confusão mental que ela se encontra. Que mostram o esforço que ela está fazendo para não cair no fundo do poço, para não sair no desamparo emocional, para não ser “a mulher que sofre por homem”.

Não é uma narrativa antiga, o livro foi publicado pela primeira vez em 2002, mas confesso que ler um livro sofre fragilidade emocional, sobre desamparo, sobre sofrimento, sobre dor em pleno 2017 for refrescante e confortante. Em um tempo onde tanto se fala (e deve-se falar) sobre a força da mulher, é confortante um livro que diga “ei, mas as vezes a gente fica mal. As vezes a gente perde o chão. As vezes a gente beira a loucura. As vezes a gente entra em uma instabilidade emocional. Ei, as vezes isso acontece depois de términos. As vezes a gente se sente abandonada. E sabe, isso não te faz menos mulher. Isso não te faz fraca. O fundo do poço não te faz fraca. Tá tudo bem”.

“The tears rose and I didn’t cry. To appear strong, to be strong. I had to make a good showing of myself. Only if I imposed that obligation would I save myself”

Olga reflete todas as dimensões de uma pessoa. Ela reflete uma pessoa que é boa, mas que tem pensamentos raivosos, maldosos, considerados errados. Ela erra. Ela exagera. Ela age sem pensar. Ela é uma pessoa com qualidades e defeitos e os melhores personagens são assim. Tão humanos que chega uma hora que a gente não sabe se gosta ou não deles. E a questão não é gostar ou não deles. É perceber que não é nosso papel colocar esse julgamento ali. É apenas ler a história deles, trabalhar a empatia, a compreensão e ouvir com o coração aberto.

“But as for me, if all the features that I had assimilated from him had once seemed to me lovable, how, now that they no longer seemed lovable, was I going to tear them out of me? How could I scrape them definitively off of my body, my mind, without finding that I had in the process scraped away myself?”

“Dias de Abandono” fala sobre um processo. Sobre aceitação de fragilidade. Eu já escrevi tanto sobre como as vezes a gente só consegue levantar se nos permitirmos cair de verdade e eu acho que é por isso que esse livro foi tão forte, eu só queria abraçar a personagem e dizer que ela podia cair.

 

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3 pensamentos sobre “O fundo do poço

  1. Oi. Na minha opinião, encontrar conforto, aceitação e afinidade para um percurso, se tornou complexo e tão especializado que nos voltamos aos especialistas.

    Temos uma cultura amplamente individualizada e fragmentada, que por outro lado exige e requisita formas bastante especificas para as relações, quaisquer que sejam. Criamos uma série enorme de critérios para a menor relação que seja e ainda não nos preocupamos com os requisitos de sua manutenção, o que fazemos pelos outros atualmente, quanto dedicamos?

    O que nos resta é a estereotipia, ela não quer ser a mulher rejeitada. Novamente, fruto de um ambiente restrito, fruto de um ambiente radicalmente voltado para não aceitação. Acreditamos que qualquer posição atual, implica em uma real e fixa caracterização pessoal.

    Pelo que pude acompanhar, de pesquisas e interpretações mais recentes, o outro é aquele que nos dá um ponto de referência, o outro em partes sempre referencia nossa ação, o problema é que não damos tanta atenção para o fato de estarmos absolutamente co-relacionados. Não perdemos um casamento, namoro, etc, mas sim uma referência, que nem sempre nos damos ao trabalho de explicar as razões de terminarmos. Às vezes negligenciamos até a educação mais corriqueira.

    Não gostei quando você põe a questão de gênero, preferia que você falasse como um todo. Não consigo perceber em como criar uma diferenciação assim poderia ajudar. Quando você fala sobre a mulher ser fraca, o homem não poderia ser fraco também?

    “E a questão não é gostar ou não deles. É perceber que não é nosso papel colocar esse julgamento ali.”

    É um trecho que reflete um pouco nossa desresponsabilização geral sobre as relações. So atribuímos um valor quando não temos nenhuma capacidade de relação com tal pessoa, se eu sei que algo é difícil para alguém, há entendimento e não valoração, mas como poderia haver responsabilidade quando temos que lidar com critérios e formas tão restritas?

    É sempre difícil estabelecer um nível de responsabilidade, talvez, seja a compaixão nossa maior esperança.

    Sua análise ficou bastante completa e detalhada. Já tinha ouvido falar da autora também. A última citação é realmente fundamental. Vou procurar pelo livro, obrigado.

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  2. Oi, novamente. Desde ontem venho pensando no livro e no seu texto, hoje resolvi adquiri-lo e li o primeiro capitulo.

    Agora, após ver seu vídeo e ler o primeiro capitulo do livro, posso opinar um pouco melhor.

    Diria que a questão principal era uma dificuldade anterior dela, quando ela relata a forma com que ela aprendeu a lidar com as situações difíceis na infância, demonstram um padrão que ela internalizou. Depois temos a questão das outras desistências do Mário e como ela repete o mesmo padrão de comportamento.

    Ela não consegue extrair dele nenhuma expectativa em relação a ela. Ou seja, desde criança ela está sob indeterminação. A profissão dele também ajudou, mudar de país e precisar reconstruir afinidades aprofundaram o sentimento, além de reduzir drasticamente as possibilidades dela — sendo escritora, os convívios dela eram ainda menores e mais dependentes.

    Estar sob constante indeterminação e com um ambiente tão restrito, facilitou o aparecimento das obsessões como uma expectativa de controle. Como uma forma dela exigir uma contra partida, quando em nenhum outro âmbito da vida dela, ela conseguia. Do ambiente ela não conseguia exigir nada.

    Quando eu falei sobre a questão de gênero, foi por não acreditar em “sofrer por homem, sofrer por mulher”, no caso ela sofria por diversas indeterminações do meio, onde ela não pedia por contra partidas e não especificamente por um abandono.

    É um dos assuntos que tenho maior interesse, então resolvi comentar (até por me afetar).

    Hoje, socialmente sofremos do mesmo, somos indeterminados pela violência, pela performance, pelo desempenho, pelas constantes avaliações, etc.

    No entanto, temos que aprender a conviver com a “realidade”, até como uma forma de contra partida nossa. Para mim a acceptance and commitment therapy a assertividade e o budismo, são as nossas maiores respostas.

    Gostei bastante que você voltou a postar aqui no blog/canal e gostei bastante de poder pensar nas questões do livro, me ajudaram bastante também (bastante).

    Vou continuar lendo e se puder, dou outra resposta aqui.

    Obrigado.

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    • Oi! Obrigada pelos seus comentários, acrescentaram muito ao meu texto. Concordo muito com a questão da indeterminação, até porque o indivíduo acaba se formando a partir do contato com o meio e esse meio dela era extremamente restrito e portanto a visão dela sobre ela mesma acabou ficando muito restrita no aspecto de ser e possibilidades.

      Na questão de gênero, claro que homens poderiam ser fracos também, eu delimitei o ponto de vista por estar escrevendo sobre o meu ponto de vista como leitura e pela história se tratar da experiência de uma mulher sobre sentimentos de abandono e dor. E também acredito que ela sofria diversas indeterminações, mas essa questão de sofrer por alguém é bastante trabalhada no livro pela personagem e acredito que tenha sido um dos objetivos da autora ao propor essa narrativa.

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