Cantos e Fortalezas

Faz tempo que eu não me dirijo a esse documento. E sabe, a sensação é boa. De não sentir uma necessidade absurda de comentar sobre como eu estou me sentindo. Mas eu gostaria de dizer, que de tempos em tempos, a dor reaparece. E honestamente, quando ela volta ela consegue me derrubar.

Não permanentemente. Eu encontrei uma força em mim que eu desconhecia e eu sei que eu vou levantar todas as vezes que cair. Mas é cansativo também. Tantos tombos, tropeços e deslizes. Machuca. Eu sei que eu sou forte para seguir sozinha e eu sei que eu sou feliz com as minhas escolhas e meus objetivos. Mesmo que esses te afastaram de mim.

Hoje eu olho e não te reconheço mais. O que é bom. E devastador. Pelo menos eu entendo que eu não poderia estar com uma pessoa como tu. Por vários motivos. Eu não vejo mais o menino pelo qual eu me apaixonei perdidamente em ti. Eu só vejo uma pessoa que me deixa intrigada. Porque tu tem um jeito de ser que intriga. Não no bom sentido, eu diria. Eu só não te reconheço mais. Não sei se tu diria o mesmo de mim. Eu não grito a sete ventos para todos ouvirem o que eu estou pensando. Tu grita. E eu acabo escutando. E não reconhecendo a pessoa que eu me entreguei completamente. Aquele menino não existe mais.

O que tu diria de mim? Tu iria me reconhecer? Tu diria que eu ainda sou a mesma menina pelo qual tu te apaixonou? Eu não diria que sou a mesma pessoa, caso essa informação seja do teu interesse. Eu mudei tanto. E para tão melhor. Eu gostaria de poder compartilhar essa descoberta com o meu antigo melhor amigo. Eu gostaria de dizer que eu cresci e eu estou forte. Confiante. Eu confio em mim de uma forma que nunca achei que fosse possível. Eu aprendi a gostar de mim, depois de quase vinte anos em contato comigo mesma. Eu aprendi a gostar de mim mesma pelo que eu sou. Pelo que te afastou de mim. Eu amo essa parte de mim. E se por isso eu não posso mais te amar, então, me perdoa por escolher a mim. Eu escolhi a mim. E a todos os meus defeitos, qualidades e características que possam ter te afastado. Eu escolhi todas elas e compus uma versão que eu me orgulho de ser.

Eu precisei te perder para me encontrar. E dói tanto, mas eu entendo que era necessário. Eu me encontrei e percebi que isso é mais importante do que lutar uma luta já perdida. Do que tentar nadar em um mar de ressaca. Do que correr uma maratona sem fim. No fim, naquele fim que doeu de uma forma que eu não achei que fosse ser possível, eu me encontrei.

Eu já sabia um pouco sobre mim. Mas a tua saída permitiu que eu mergulhasse em contato comigo mesma de uma forma não conhecida antes. Eu abracei tudo que antes eu repudiava. Porque essas partes também são eu. E tu pode não gostar e tu pode ter corrido de tudo que eu represento. Tu pode correr para longe de mim, mas eu não. E eu já quis tanto. Já quis tanto entrar em descontato e apagar tudo que eu odiava. Eu já quis tanto me mudar para não afastar ninguém. Eu tentei. Eu tentei e eu percebi que isso poderia machucar mais do que a tua partida.

Então eu te deixei ir. E confia em mim quando eu digo que doeu. Mas eu te deixei ir para poder receber todas as partes de mim que eu estava expulsando. Por ti.

Eu gostaria de dizer, que eu sei que eu sou forte para seguir sozinha. Porque eu sigo sozinha, todos os dias. E eu sou forte o suficiente para não cair em um canto e lá permanecer. Porque eu levanto todos os dias e trabalho para ser a melhor versão de mim mesma possível. Eu mergulho dentro de mim e de todas as florestas escuras e raramente visitadas, porque eu estou construído uma versão cada vez melhor. Cada vez mais em contato. Cada vez mais cheia dos pedaços que você odiava. E eu repudiava. Eu queria ter me encaixado no seu quebra-cabeça. De verdade. Eu te amei muito. Mas eu preciso completar o meu quebra-cabeça e você estava me roubando peças. E eu preciso me amar mais. Essa energia toda precisa se direcionar a mim. Por mais narcísico que isso possa parecer. Eu preciso de um pouco desse egoísmo. Para olhar para mim.

Mas tem dias, que eu caio. Tem dias que toda a força some. E tem dias que permanecer no chão parece, realmente, uma ideia a considerar. Porque eu tenho toda essa força em mim, contudo, ela demanda muita energia. É um trabalho em construção.

E eu gostaria de dizer que hoje, eu estava planejando uma viagem. Sabe, daquelas que a gente sonhou juntos em fazer. E tudo desmoronou. Porque eu estou sozinha. E todo aquele sonho está no lixo. E minha força não foi o suficiente para lutar contra a dor que apareceu em mim. É engraçado que a dor sempre ganha quando ela quer. É como lutar sozinha contra várias memórias e pedaços que você deixou antes de sair. Alguns eu consigo rebater. Outros são golpes mortais.

Pensar na nossa viagem foi mortal. Porque era um sonho meu. Que tu pulou junto. E tínhamos um planejamento. E agora não é mais nada. Nós somos nada. Tu é nada.

E fica muito difícil me convencer, quando eu estou caída em um canto sem forças para levantar, que eu posso ser tudo.

Eu gostaria de dizer que esses golpes são pesados. E molham o meu rosto com lágrimas salgadas que raramente caem. Mas quando caem. Ah, é doído.

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3 pensamentos sobre “Cantos e Fortalezas

  1. Um dos meus favoritos até agora.

    Às vezes eu me impressiono com a quantidade de energia que eu coloco em certas situações e penso mesmo em deixar de fazê-las, que não vale a pena. Em alguns casos eu ganhei resistência, em outros penso que é melhor nem retomar.

    Ainda faço coisas que dispendem muito e nessas ocasiões sempre imagino como seria simplesmente parar. Ainda faço as que considero importantes.

    Eu tinha decidido parar de publicar o que escrevia, lendo seu blog, fiquei com vontade de publicar/escrever novamente e criei um novo blog (deixei o link no meu nome, acho que já está abrindo).

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