Sobre aceitação e buracos

Eu gostaria de dizer que eu estou caminhando. Às vezes eu perco a percepção de que eu não estou parada afundando em uma areia movediça sem fim. Eu estou caminhando. Os passos podem ser lentos e pesados, mas eles existem e eu preciso reconhecê-los. Eu reconheço que nos últimos dias eu consegui acordar e só fui me preocupar com a sua existência no mundo no meio da tarde. Eu gostaria de dizer que isso é um passo grande comparando para a minha apuração frenética ao acordar em necessitar saber o que você estava fazendo como se fosse um ar que eu precisasse para respirar. Se você é ar para respirar, é um ar contaminado. É um ar viciante. E todo vício leva um tempo para o viciado se ver limpo.

Contudo, eu não estou afundando em ti. Eu precisei afundar em ti para me encontrar em mim. Eu precisei afundar muito para perceber que ninguém iria me salvar a não ser eu mesma. E eu precisei de uma rejeição da pessoa que mais me aceitou para perceber que a única aceitação que importa, é a minha. Eu gostaria de dizer que tu foi grandes lições. Lições que doem. Mas eu me dou um tapinha nas costas quando consigo perceber que signifiquei o meu afogamento e minhas caídas e toda a dor em algo bonito.

Eu provavelmente nunca vou te agradecer de verdade, porque eu gostaria de ter aprendido tudo isso sem sentir tanta dor e sem me machucar tanto, mas talvez tenha sido o único jeito. O único jeito de eu entender que não importa que tu tenha me aceitado um dia, e o meu objetivo não é buscar outro alguém para me aceitar. Eu me aceitei pela primeira vez em dezenove anos quando tu me deixou sozinha chorando naquela cafeteria. Foi a primeira vez que eu olhei para mim e gostei de mim. Foi quando tu deixou de gostar. Quando tu acabou de destruir o resto de individuo que havia sobrado dos primeiros golpes.

Durante todo nosso relacionamento, eu não conseguia me aceitar e o fato que tu me aceitava era o suficiente para mim. Eu não estava bem comigo mesma, mas tu gostava de mim e isso me tornava uma pessoa boa. Uma pessoa suficiente. Um ser que prestava no mundo. Porque tu dizia que sim. Não porque eu sentia que sim.

E quando tu partiu. Por tantos motivos que eu já cansei de listar e doem ainda relembrar, eu quebrei. Porque quem significava a minha qualidade não significava mais. Não me achava mais boa o suficiente. Não me via mais como alguém que valesse a pena ficar por. Lutar por. Tu não lutou por mim. Nem um pouco. E isso machuca mais que tudo. Eu quebrei e tu atirou várias pedras. E eu atirei várias pedras em mim mesma. Porque eu sou uma ótima arma para autodestruição. E isso me assusta tanto.

E lá no fundo dos vários buracos que eu caí. Eu olhei para mim. Eu olhei para o que tinha restado de mim. E eu cresci, cresci, cresci. Pela primeira vez eu me acolhi. Eu acolhi os pedaços que eu mesma havia destruído. Eu havia destruído porque tu tinha problema com eles. Não eu. Ah, não eu. Eu me acolhi como nunca. E eu me amei. As partes bonitas. As feias. As que eu escondo embaixo de vários tapetes. As que só tu viu. As que nem tu chegou a descobrir.

Eu gostaria de dizer que eu descobri que eu não preciso de ninguém para validar a minha existência. Só eu posso fazer isso. Eu nunca vou acordar um dia e resolver que não vale mais a pena lidar comigo mesma e que é difícil demais. Que eu sou demais. Inteligente demais. Esforçada demais. Com objetivos demais. Intensa demais. Quebrada demais. Eu me valido o suficiente para me retirar do buraco o quanto precisar.

Tu me validava o suficiente para me empurrar um pouquinho mais. Porque foi chato demais lidar comigo enquanto eu estava no buraco e tu só não podia me dar tempo para curar. Era demais. Tudo era demais.

Eu gostaria de dizer que eu não preciso mais da tua aceitação. E isso é um passo tão grande. Porque por muito tempo eu corri nessa direção. Por muito tempo era isso que eu precisava. Dos teus sims. Que tu gostasse de mim. Eu não preciso mais da tua aceitação. E eu não preciso mais da aceitação de ninguém. Eu finalmente conquistei a minha. E é isso que importa. Só isso. Mais nada.

Anúncios

Um pensamento sobre “Sobre aceitação e buracos

  1. Esse texto me faz recordar de tantas coisas,muitas vezes não damos a nós mesmo o devido valor,aceitação pessoal,esperamos que outros vejam isso em nós,um ‘alguém’ especial,mais a vida ensina,dói…dói muito….mais aprendemos a viver com nosso cacos estilhaçados,e um dia nos damos conta que as nossas imperfeições,são na verdade o que nos difere do resto do mundo,o que nos faz especiais.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s