Todos nós adorávamos caubóis

Eu gostaria de dizer que eu li um livro que tu iria gostar e isso me matou um pouquinho por dentro. Por eu te vi em todas as 190 páginas da história. A leitura é um refúgio, a leitura é um lugar que eu uso para escapar e normalmente funciona. Mesmo que envolva romance, mesmo que envolva relacionamentos que terminam, mesmo que envolva sentimentos similares. É um mecanismo de fuga ainda assim. Contudo, quando eu te vejo em todas as páginas, em todas as frases, quando eu me imagino recomendando o livro para ti e quando eu te imagino lendo e amando e quando eu imagino a gente conversando sobre o livro e quando eu imagino eu comprando o livro e te dando de natal porque o livro é mais tu do que eu, dói. Não é mais fuga, porque eu te encontrei ali.

Livros era uma coisa que nos unia tanto e eu sinto tanta falta de comentar contigo sobre o que eu ando lendo e sobre o que eu ando pensando sobre a literatura. E normalmente vai bem, até eu te ver transparente nas páginas de um. Tu iria gostar mais do livro do que eu, eu tenho certeza. Nós iriamos discordar sobre tanta coisa que o livro aborda, mas eu queria poder falar sobre ele contigo. Como eu queria voltar alguns meses, para quando nada tinha desabado e tudo ainda estava indo bem.

Eu queria te ligar às duas e meia do sábado que eu terminei o livro e dizer que tu precisava ler. Que todas as páginas tinham o teu nome escrito e que eu me lembrei de ti durante todo o processo de leitura. Porque eu lembrei. Como eu lembrei. Foi uma dor sem fim. É aquele livro que vão perguntar o que eu achei e eu vou abrir um sorriso estranho, porque eu gostei do livro, mas foi uma experiência de leitura tão dolorida e tão pessoal.

Ninguém mais vai ler esse livro pensando em ti dessa forma. E talvez ninguém goste desse livro da forma como eu gostei porque esse livro não faça a pessoa entrar em contato com questões do passado. E foi engraçado eu ler um livro sobre uma road trip, enquanto tu faz a tua road trip pensando o quanto nós discutimos sobre road trips. Pensando em quantas brigas. Quantas opiniões contrárias. E agora, o tempo passou e a gente não tem mais importância na vida um do outro. Tu não precisava mais se preocupar com eu que fico para trás. Eu não preciso mais me preocupar contigo que vai.

Eu gostaria de entrar em contato de alguma forma e recomendar esse livro. Não é um livro que tu pegaria na livraria por livre espontânea vontade, acho eu. Mas é um livro que tu leria por recomendação minha e diria que eu estava certa, mais uma vez. Porque eu não errei nenhuma ainda, ouso dizer. Nenhuma recomendação falhou e eu gostaria que essa fosse a última. Não vai falhar, eu sei que não.

Talvez a gente se encontre sem querer, algum dia por aí, e eu possa mencionar um livro que eu li e pensei que tu fosse gostar. Talvez tu ainda sinta um respeito pelo meu gosto literário e vá atrás. E talvez tu sorria ao perceber o motivo pelo qual eu lembrei de ti, durante as 190 páginas sem fim. Tu não vai sentir a dor que eu senti. Tu não vai querer largar o livro a cada dezena de páginas e chorar sem fim por não poder pegar o telefone e me recomendar a história.

E eu gostaria de dizer, que eu sinto falta, de falar contigo, sobre livros e dói não poder ligar e dizer “ei, pensei em ti lendo esse livro, por favor, lê, por mim”.

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Um pensamento sobre “Todos nós adorávamos caubóis

  1. Ao ler seu texto, penso um pouco na relação dos conceitos de futuro e de passado.

    Sentir falta de algo (passado), não deveria estabelecer uma relação com uma vontade futura. O passado é passado e não pode ser repetido. O passado só mostra, lembra-nos de algo importante ocorrido, mas não nos fala de uma possibilidade presente de repetição e sim com algo que já ocorreu. O presente se forma com uma expectativa futura e não com algo que passou.

    O passado enquanto passado, em toda a sua magnitude e extensão, é passado. O passado não é um fragmento isolado. Assim como o presente ou o futuro, só é possível planejar ou querer algo, quando este algo não acabou. O futuro só nos fala do novo, do espontâneo.

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