Tinha uma carta dentro de um livro

Eu gostaria de dizer que eu achei outro fragmento do nosso passado perdido por aí hoje. E doeu. Foi uma facada bem no meio do estômago. Sem dó. Sem piedade. Sem o romantismo dos filmes onde a mocinha passa por um período de dores e uma carta magicamente surge do passado, ela liga
e o mocinho volta. Você não vai voltar. Eu não quero que volte. Não é um filme. É a vida real, onde me reencontrar com palavras suas de maio é como pisar em vários cacos de vidro e não conseguir parar de caminhar até terminar de cruzar a sala inteira e ver os meus pés sangrando. Eu não consegui não ler a carta, ao acha-la. Eu podia não ter lido. Eu podia só ter colocado ela na caixa para fazer companhia a todas as outras coisas que são como facadas no estômago.

É engraçado que essa carta tinha ficado escondida dentro de um livro tanto tempo. É engraçado que justamente essa tinha ficado tanto tempo em liberdade e não encarcerada junto com o resto. Justamente essa, a mais bonita, a mais significativa, a que com certeza, iria doer mais de ler dois meses depois do término quando você já seguiu em frente e eu estou tentando me reerguer de alguma forma. Foi essa que eu achei. A que você fala tão simbolicamente sobre como eu te emponderei como pessoa e como eu fiz com que tu crescesse como ser humano e. Dói. É uma carta maravilhosa. Você fala sobre como o seu coração nunca mais vai ser o mesmo porque ele ainda está crescendo e se desculpa por ficar paranoico com seus erros porque não consegue pensar em um mundo onde nós não estejamos juntos.

Pode doer muito mais e eu posso sofrer muito mais e pode parecer que eu esteja caminhando em cacos de vidro por nada, mas a verdade é que o que aconteceu entre nós foi importante demais e marcante demais e simplesmente, eu me importo e eu não me importo em me importar. Eu não quero uma anestesia para essa dor. Dói. Sim. Como nunca. Mas eu me importo e eu não quero apagar. Eu não quero um ponto final e seguir em frente. Eu quero um ponto no nosso capítulo.

Eu quero um capítulo de transição. Focado na minha reconstrução como personagem. Lutando as minhas batalhas internas. E vai demorar. E vai doer. E eu sei que é uma dor que você não quer entrar em contato com e não quer sentir. E eu sei que ficar sozinho não é a receita para sua felicidade. E eu respeito isso. Você me avisou. Ponto final e seguir em frente. De forma fria. Sem demonstrar sofrimento maior. Partir para outra. Sem perder muito tempo remoendo o que deu errado e porque acabou. Para que, certo? Ponto final e seguir em frente é realmente o que eu gostaria de conseguir fazer. De verdade.

Mas eu preciso do capítulo de transição. Eu preciso me reerguer sozinha. Eu preciso entender o que deu errado e por que. Eu preciso de tempo. Tempo para que você, de uma forma saudável, não seja mais uma constante. Seja apenas uma memória fragmentada no canto do meu armário.

Eu poderia usar outro personagem para que essa eliminação ocorresse de forma mais rápida e eficaz. Contudo, eu gosto de lutar algumas batalhas sozinha e essa é uma delas.

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2 pensamentos sobre “Tinha uma carta dentro de um livro

  1. A vida é mesmo qualquer coisa sobre esquecer e lembrar…
    e um tanto mais bonito é lembrar.
    E o tempo é mesmo mestre em esconder saudades em cartas perdidas em livros, versos em arquivos do pc, fotos, ruas e sorrisos, e tantas outras coisas supostamente esquecidas… Mas ele também é mestre em levar (depois passar algumas vezes na nossa porta) tudo para um canto onde elas possam existir de um modo bem menos doloroso, quem sabe até bonito…

    Enfim, boa sorte. ^^

    Muito bonito o seu texto.

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  2. Bonito. Gostei do desenvolvimento do texto, ela revela a complexabilidade humana, que nunca deve ser reduzida ou forçada em um molde.

    Aproveitando sua metáfora, diria ser uma transição, para uma concepção onde a transição seja a norma. Pensar/significar acontecimentos importantes, sempre exigirá esforço, sempre será desconfortável.

    O que é possível fazer, é alterar seus significados, esforço e desconforto ao pensar, significam lidar com algo importante e por serem importantes, exigem. Vai doer, mas não é uma dor banal, por algo banal, mas sim a própria experiência, um modo de significá-la.

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